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A incrível história do adolescente que se alimentou só de tomate por 12 anos

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22/07/2016 14:03
Legenda da foto

Alimentação restrita não era um capricho, Liam Pierce tinha problema psicológico; ‘foi difícil explicar, ninguém me entendia’

Molho de tomate. Sopa de tomate. Compota de tomate. Feijão “entomatado”. Pizza de tomate. Ketchup. E, claro, tomate ao natural.f555b639-bcf1-42d9-b880-89d6148efa38

Essa foi a dieta do britânico Liam Pierce por 12 anos. “Havia coisas que não eram tomate, mas muito poucas coisas. E sempre com ketchup”, disse Liam à BBC.

“Nada de frutas ou legumes (além do tomate)”, disse o jovem.

Mas sua dieta peculiar não era apenas um capricho. Liam sofria de um distúrbio psiquiátrico. “Minha sensação, quando pensava em comer outros alimentos, era a mesmo de uma pessoa com aracnofobia ao ver uma aranha. Era como sair da minha zona de conforto”, disse Liam em uma entrevista de rádio a BBC.

Até 15 sabores
A doença de Liam é rara e pouco conhecida: “síndrome de alimentação seletiva” (também conhecido como SED ou ARFID, na sigla em inglês).

Trata-se, de acordo com especialistas, de uma neofobia alimentar (aversão a alimentos novos) que afeta principalmente as crianças e pode se estender até a adolescência.

O que é a síndrome de alimentação seletiva?

– É uma fobia associada a certos alimentos e muitas vezes conhecida como “neofobia”;

– Não é simplesmente ser “exigente” com os alimentos (a maioria das crianças são);

– Quanto mais tempo persiste, maior é a rejeição a certos alimentos.

A principal consequência é a deficiência nutricional, o que pode prejudicar o desenvolvimento intelectual, o crescimento, as defesas e desempenho acadêmico, disse à BBC Mundo (o serviço em espanhol da BBC) Jesus Roman, presidente da Sociedade Espanhola de Dietética e Ciência dos Alimentos (SEDCA).

“A SED significa que você não tem mais de 15 sabores (registrados)”, disse Liam. “É muito difícil explicar, porque muita gente não conhece esse transtorno”, acrescentou.

O caso de Liam não é único. Um exemplo semelhante foi o da adolescente britânica Jennifer Radigan, que só comia batatas fritas e queijo e apareceu na imprensa em 2015.

“Isso me afeta todos os dias”, queixou-se a jovem. “Não importa o quanto você quer comer outra coisa. Eu não posso.”

Uma criança ‘mimada’
Liam diz que quando leu na mídia sobre outros casos percebeu que poderia estar sofrendo da mesma coisa, e começou a pesquisar sobre o tema.

“Os médicos me disseram que eu era simplesmente uma criança mimada”, diz Liam. “Mas isso não é assim. É uma doença real. E é difícil explicar porque muitas pessoas não entendem.”

Sua mãe, Helen, também teve problemas. “Eu não conseguia entender por que meu filho não queria provar algo novo. Foi traumático para ele e para mim”, disse Helen a BBC. “Não era uma criança mimada. Era uma resposta fóbica”, acrescentou Helen.

Alguns estudos norte-americanos encontraram milhares de casos que respondem aos critérios desse distúrbio alimentar.

E, de acordo com o Royal College of Psychiatrists, no Reino Unido, cerca de 12% das crianças de três anos de idade sofrem de forma persistente deste distúrbio e são extremamente exigentes com a comida, mas menos de 1% o desenvolve na idade adulta.

De acordo com a Revista Britânica de Psicologia Infantil Clínica e Psiquiátrica, a síndrome de alimentação seletiva é “um fenômeno muito pouco estudado que pode resultar em isolamento social, ansiedade e conflito.”

Final feliz
Por sorte, a história de Liam tem um final feliz.

Duas semanas atrás, ele começou a incluir novos alimentos em sua dieta. E a mudança, diz ele, se deve a terapia de hipnose. “Nas últimas semanas eu tentei mais de 50 novas coisas”, disse Liam.

“É libertador saber que venceu o distúrbio e ver que está interessado na comida, em provar novos alimentos. Mudou nossa vida”, disse sua mãe.

G1/ Fronteira Online