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Aumento de casos de sífilis congênita preocupa em Santa Catarina

Notícias, Saúde
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19/03/2018 16:08

Trata-se de uma doença sexualmente transmissível que, se não tratada na gravidez, pode levar à má-formação ou até ao aborto do feto

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Preocupante. É assim que a Diretoria de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado da Saúde (Dive/SC) define o aumento de 24,4% no número de casos de bebês catarinenses que nasceram com sífilis. Trata-se de uma doença sexualmente transmissível que, se não tratada na gravidez, pode levar à má-formação ou até ao aborto do feto. Ao todo, foram 697 casos ao longo de 2017, contra 560 em 2016, total que era considerado alto já que, conforme a própria Dive, nenhum caso de sífilis congênita, quando a mãe transmite a doença para o filho durante a gestação ou parto, deveria ser admitido.

O nascimento de crianças infectadas com a bactéria Treponema Pallidum demonstra que o problema da epidemia de sífilis que assola não só o Estado, mas o país, vai além das estatísticas e acende dois alertas. O primeiro e mais crítico é o que expõe falhas no atendimento das mulheres durante o pré-natal, que, por ser inadequado ou tardio, deixar passar o diagnóstico da doença que pode ser facilmente tratada e curada. Já o segundo, que leva em conta os casos de sífilis adquirida, evidencia na prática o efeito cadeia desse tipo de infecção.

– Nossa preocupação é com a (sífilis) gestante e a congênita. Só tem essas doenças porque foi adquirida. Precisa se ter um olhar especial para a gestante e o plano estadual é focado nisso para evitar que a criança nasça já com a doença. A falha está onde? No pré-natal? Claro que tem a questão da sífilis adquirida, mas não dá para combater todos os casos. Então, o foco inclusive do Ministério da Saúde é esse. A gente monitora as três, mas objetiva na questão de capacitação e divulgação (para imprensa) é a de gestante e congênita – diz a gerente de vigilância das DST/Aids e Hepatites Virais da Dive/SC, Dulce Quevedo.

A sífilis adquirida que Dulce menciona é a classificação usada nos casos onde o paciente contraí a bactéria por meio de relações sexuais onde não há uso de preservativo. Em 2017, 10,6 mil catarinenses foram diagnosticados com a doença, percentual 25,9% superior ao registrado em 2016. No Brasil, dados de 2016 do Ministério da Saúde evidenciavam o crescimento dos índices.

Naquele ano, comparado a 2015, foram registrados 42,5 casos para 100 mil habitantes, aumento de 26,8%. Os dados referente a 2017 ainda não foram divulgados. Também em 2016, SC superou a média nacional no número de casos de sífilis: 8.468 diagnósticos, 40% a mais do que o total de 2015, quando 5,9 mil homens e mulheres contraíram a doença.

– Os casos só tem aumentado, o que mostra uma falta de autocuidado da população em geral, que não usa mais preservativo nas relações (sexuais). É preciso, realmente, ter maior atenção, trabalhar a questão da prevenção. Algo que faça diminuir a circulação do problema. É um grave porque tem medicação e ela é simples, a penicilina. Mas precisa fazer o tratamento correto – conclui Dulce.

Dos 697 casos de sífilis congênita registrados em Santa Catarina, a maior parte deles (28%) se concentra na região da Grande Florianópolis, conforme estatísticas da Dive SC. Ao todo, em 2017, foram 196 bebês que nasceram com a doença, que é transmitida pela mãe durante a gestação.  A segunda região com maior número de diagnósticos positivos para a infecção no período é a Nordeste, que inclui Joinville, por exemplo. Por lá foram registrados 107 casos ao longo do ano passado, contra 89 em 2016. Em ambas as regiões as estatísticas são crescentes nos últimos anos. Para se ter ideia, enquanto na Grande Florianópolis, entre de 2014 e 2017, o salto no número de bebês que já nasceram com sífilis foi de 61,9%, na região Nordeste do Estado o percentual atingiu 189% de aumento – em 2014 foram registrados apenas 37 casos da doença.

A gerente de vigilância das DST/Aids e Hepatites Virais da Dive/SC, Dulce Quevedo, explica que além dessas duas regiões, há também a Foz do Rio Itajaí, que é considerada área de risco.

– São regiões que têm maior número de casos pela forma de vida, onde há maior juventude. Florianópolis e Joinville por conta das universidades e a Foz por conta da questão portuária. Por mais ações que se faça, a juventude entre os 15 e 25 anos acredita que nada vai acontecer – pondera a gerente.

Médico da família responsável pelo Departamento de Gestão da Clínica da Secretária de Saúde de Florianópolis, Ronaldo Zonta também acredita que o aumento no número de casos se dá por questões comportamentais – como não usar preservativo – e, somado a isso, em virtude da crise de abastecimento de penicilina.

Usada no tratamento da sífilis, principalmente em gestantes, a penicilina chegou a sumir das prateleiras de farmácias e postos de saúde no ano passado em Santa Catarina. Dulce lembra, inclusive, que na época precisaram ser prioridade os tratamentos das grávidas e seus parceiros. O baixo custo do produto no mercado não era atrativo aos laboratórios. Agora, no entanto, conforme a Dive, a reposição do medicamento em SC está regularizada e uma nova remessa do medicamento foi dividida entre os municípios do Estado.

– A penicilina é o tratamento mais rápido para a sífilis. A alternativa é tomar outro remédio, a doxiciclina, porém o tratamento é mais, de 14 a 28 dias e não pode ser usado em gestantes porque não é eficaz.

Vai desde uma dose única, até duas injeções por semana durante três semanas. Mesmo alérgicos devem fazer a dessensibilização para não causar reações. Hoje existe uma falta de cultura consolidada de fazer exames de rotina incluindo exames de sífilis e hepatites virais e isso leva ao aumento – conclui Zonta.

Testes rápidos e tratamento oferecidos de graça na Capital

Implantado em Santa Catarina em 2016 pela a Diretoria de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado da Saúde (Dive/SC) e funcionamento oficialmente desde meados de 2017, o Comitê Estadual de Monitoramento da Transmissão Vertical, que acompanha os casos da doença congênita, incentiva e dá suporte para que cada município tenha seu próprio comitê para poder acompanhar a evolução dos casos de sífilis pelo Estado. Dentro desses comitês, conforme orientação da própria Dive, os postos de saúde de cada cidade deveriam disponibilizar testes rápidos para o diagnóstico da sífilis e outros doenças sexualmente transmissíveis.

– O tratamento na rede pública é gratuito. O teste rápido, em até meia hora, diz se o paciente tem ou não sífilis. O que nós pedimos é que o paciente seja atendido prontamente quando procura, mas entendemos que às vezes, por conta de recursos humanos e da demanda, esse atendimento é centralizado em uma unidade básica só ou até é feito por agendamento – pondera a gerente de vigilância das DST/Aids e Hepatites Virais da Dive/SC, Dulce Quevedo.

Ronaldo Zonta, médico da família responsável pelo Departamento de Gestão da Clínica da Secretária de Saúde de Florianópolis, pontua que há aproximadamente dois anos todos os postos de saúde da cidade (49) dispõem dos testes rápidos que são sigilosos e gratuitos. Zonta frisa que, por conta desse comportamento, é que as estatísticas estão cada vez mais compatíveis com a realidade. O próprio Ministério da Saúde alerta, no relatório da sífilis de 2017 com dados de 2016, que o aumento mais acentuado das taxas para sífilis representa o número de casos notificados ao invés do aumento real do número de casos.

– São patologias que tem reemergido. Florianópolis, na população em geral, tem a taxa de sífilis acima da taxa brasileira – explica o médico.

DC