X

Notícias

Coalizão de Macri vence eleições legislativas na Argentina

Internacional, Notícias, Política
-
23/10/2017 09:48

Cambiemos teve vitórias nas principais províncias do país, dentre elas Buenos Aires. Ex-presidente Cristina Kirchner deve conseguir vaga no Senado, mas perdeu disputa contra candidato governista

Mauricio Macri celebra vitória do Cambiemos junto com a governadora de Buenos Aires, Maria Eugenia Vidal (Foto: Marcos Brindicci/Reuters)
Legenda da foto

A coalizão Cambiemos, do presidente da Argentina, Mauricio Macri, ganhou as eleições legislativas de meio mandato realizadas neste domingo, 22, com vitórias nas cinco maiores províncias do país, segundo os resultados oficiais. O pleito foi considerado o primeiro grande desafio do presidente desde que ele assumiu o poder, em 2015.

No maior distrito, a província de Buenos Aires, que concentra quase 40% dos eleitores, o candidato do Cambiemos ao Senado, Esteban Bullrich, obtinha até às 03h55, 41,38% dos votos, contra 37,25% da ex-presidente e principal opositora Cristina Kirchner, do partido Unidad Ciudadana, com 99,22% das urnas apuradas.

As listas macristas ganhavam das do kirchnerismo (peronismo de centro-esquerda) em 15 das 23 províncias, entre elas Buenos Aires, Córdoba, Mendoza, Santa Fe e o distrito federal da capital.

Com os resultados, a ex-presidente, peronista de centro-esquerda, pode conseguir um dos três assentos em jogo na Câmara Alta, obtendo assim imunidade parlamentar, em um momento em que é acusada de corrupção.

Um total de 78% dos 33,1 milhões de eleitores, votaram para renovar a metade dos 254 assentos da Câmara de Deputados e um terço dos 72 assentos do Senado.

Reações

O presidente Macri fez um discurso durante a noite, onde destacou a vitória. “A etapa mais difícil já passou e estamos crescendo com transparência, equidade e trabalho em equipe. Hoje confirmamos nosso compromisso de mudar”, afirmou.

Macri destacou ainda que “não ganhou um grupo de candidatos ou um partido político, mas a certeza de que podemos mudar a história para sempre”.

Já Cristina Kirchner reconheceu a derrota ao dizer que seu desempenho não foi suficiente para superar seus adversários, mas disse que seu partido foi a força que “mais cresceu nas eleições”.

“Unidad Ciudadana veio para ficar. É a base da construção para a alternativa a esse governo”, reiterou a oposicionista.

Eleições legislativas

Os argentinos foram às urnas para renovar um terço do Senado e metade da Câmara dos Deputados. Não foram registrados incidentes de relevância durante a votação, que começou às 9h (horário de Brasília) e terminou às 19h. No total, foram abertas 90.084 mesas eleitorais em 14.500 postos de votação.

A agência EFE informa que aproximadamente 106 mil membros de polícia, da prefeitura de Buenos Aires e das forças armadas foram desdobrados para garantir a segurança.

Ao longo do período de votação, dois colégios da capital e a Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires tiveram de ser esvaziados por ameaças de bombas, mas as votações foram retomadas após a inspeção. Nos últimos dias, foram registradas quase 3 mil chamadas não identificadas alertando sobre explosivos em diversas escolas.

Enquanto busca, com a disputa, mais apoio para aprovar suas reformas, Macri também se preocupa em barrar o avanço da ex-presidente e líder da oposição Cristina Kirchner (2007-2015). Ela concorre a uma cadeira no Senado.

A coalizão de centro-direita de Macri, Cambiemos, no poder desde dezembro de 2015, não conta com maioria relativa (87 de 257 deputados, 15 de 72 no Senado), mas conseguiu governar mediante alianças pontuais. Nestas eleições, estarão em jogo 40 de seus assentos na Câmara e 15 no Senado.

Macri demonstrou otimismo

O presidente Macri demonstrou otimismo ao votar neste domingo. “Estamos contentes com o que vem acontecendo no país. Acreditamos que temos um grande futuro pela frente”, afirmou, segundo a EFE.

Ele também falou sobre a descoberta do corpo do ativista Santiano Maldonado, cujo desaparecimento provocou um grande debate público na Argentina, com possível influência no resultado das eleições.

Uma das principais suspeitas, sobretudo por parte da família e de organizações de direitos humanos, é de que policiais foram responsáveis por seu desaparecimento. Nesta sexta-feira, 20, o irmão de Maldonado afirmou que reconheceu o corpo do ativista.

De acordo com a EFE, o presidente disse estar “preocupado” com o que aconteceu, mas pediu “prudência” e que as pessoas deixem a Justiça agir depois de que a autópsia revelou que o corpo não tinha lesões.

Já Cristina Kirchner não votou neste domingo porque tem seu domicílio eleitoral em Río Gallegos, capital da província de Santa Cruz. A cidade fica a 2,5 mil quilômetros de Buenos Aires, por onde ela sai candidata. De acordo com ela, os horários de voos disponíveis não permitiriam uma viagem de ida e volta no mesmo dia.

Impacto do caso Maldonado

Pesquisas divulgadas antes do caso Maldonado apontavam que Bullrich estava entre 2 e 5 pontos à frente de Cristina. Bullrich foi ministro da Educação de Macri, mas é um desconhecido dos eleitores. Quem vota nele, está votando, na verdade, no presidente Macri e na governadora da província, Maria Eugenia Vidal, os dois políticos com maior imagem positiva na Argentina atualmente, de acordo com a agência France Presse.

Kirchner, entretanto, não conseguiu capitalizar o mal-estar dos argentinos, cujo poder de compra foi deteriorado por uma inflação que o governo não consegue controlar. Os preços aumentaram 40% em 2016 e 17% nos primeiros nove meses deste ano.

Processada em vários casos de corrupção, a ex-presidente nega que sua candidatura ao Senado tenha como objetivo a imunidade parlamentar.

Peronismo dividido

O cientista político Fernando Ohanessian, em entrevista à AFP, atribui o sucesso previsto do governo nas legislativas de domingo à “divisão do peronismo”, e estima que isso “permite ao governo consolidar-se como primeira força política”.

O movimento peronista, fundado em 1945 pelo ex-presidente Juan Perón, está atualmente dividido entre Cristina Kirchner, de centro-esquerda, e uma corrente mais centrista encarnada pelo deputado Sergio Massa.

“Se, depois da eleição, o cenário for um processo de união do peronismo, isso complicará para o governo. Se (o peronismo) não reunificar, o governo poderá pensar em uma estratégia para buscar um segundo mandato” em 2019, acrescentou o cientista político.

Carlos Menem

O ex-presidente Carlos Menem (1989-1999), de 87 anos, que também desejava um novo mandato como senador da província de La Rioja (noroeste), seu reduto político, foi surpreendido pelo Cambiemos. Com 42% dos votos, ele foi derrotado pelo ex-ministro da Defesa, Julio Martínez, que obteve 50,52% dos votos. Com isso, Menem assume uma cadeira na Câmara Alta pela minoria.

O ex-presidente foi condenado a sete anos de prisão por contrabando de armas a Croácia e Equador durante seu governo, violando um embargo internacional. Na Argentina, os foros parlamentares não impedem processo e julgamento do legislador, mas não permitem sua detenção.

G1