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Como “Malandramente” fez de um desempregado e um pedreiro astros do funk

Entretenimento
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03/10/2016 11:19

Antes de o Hit estourar, os cantores viam um futuro não muito promissor na música

Legenda da foto

Antes de “Malandramente” estourar, há três meses, Nandinho e Nego Bam viam um futuro nebuloso na música. Enquanto o primeiro, desempregado, já não conseguia mais se manter cantando em bailes nas comunidades do Rio, o segundo tirava o sustento da família preparando gesso em canteiros de obra.

Agora, cantarolando o advérbio que sintetiza a cultura carioca, a dupla faz dez shows por semana no país, recebendo cachês de astros da música. Com uma década de funk, enfim conseguiram compraram carro e equipar a casa. E ainda viraram personagens de inúmeros memes e paródias que tomaram a internet. Tudo naquele jeitinho malandro.

“Cara, minha vida mudou completamente. Eu estava ‘respirando por aparelhos’, vivendo dos bailes. Era um aqui, outro ali. Aquela coisa bem fraquinha. Já tava pensando em arrumar outro emprego”, revela Nandinho ao UOL, que, com os novos vencimentos, adquiriu recentemente o utilitário esportivo coreano Actyon. A dupla mudou, e muito, de vida.

“Não tem o que dizer. Essa música foi um milagre na minha vida”, afirma Bam, ainda morador de São João do Meriti, na Baixada Fluminense. “Devido aos muitos shows, só estou botando na poupança por enquanto. A gente não tem mais parado. Mas já comprei bastante coisa. Minha esposa, que administra lá em casa, já comprou geladeira, sofá… Doou todas as coisas antigas.”

O duo, que já começou a trabalhar em um potencial segundo hit, “Vai Rebolar”, é tão antigo quanto seu próprio sucesso. Nandinho, que escreveu “Malandramente”, estava lapidando a faixa no estúdio do DJ Dennis, produtor de Bonde do Tigrão, Tati Quebra-Barraco e Serginho & Lacraia, entre tantos outros. Foi quando Bam chegou para outra gravação.

[Antes de “Malandramente”] Eu estava ‘respirando por aparelhos’, vivendo dos bailes. Era um aqui, outro ali. Aquela coisa bem fraquinha. Já tava pensando em arrumar outro emprego
Nandinho, autor do hit

Escorado num canto, acabou convidado por Dennis para gravar o refrão, que parecia pedir um tom vocal mais grave e à la Tim Maia. A parceria deu tão certo que logo em seguida, durante o vôo para gravação do videoclipe da música, foi oficializada. No YouTube, “Malandramente” já conta mais de 50 milhões de visualizações —número de estrela pop internacional.

“Dou muitos conselhos a eles. E não só na parte musical. Também falo em administrar a carreira e a grana que está entrando. Falei para eles se preocuparem em comprar um imóvel primeiro, dar um lar para família. E não sair fazendo loucura para esbanjar, como muitos fazem”, diz Dennis, que também é empresário e já gravou com MC Guimê e Nego do Borel.

Como ingrediente do fenômeno, ele teve a sacada de enxergar uma lacuna no funk di rui: tão populares no sertanejo e no passado, duplas, como Claudinho & Buchecha, haviam sumido.

“A gente está sempre atrás da música perfeita, que é ‘Malandramente’. Produzimos dezenas de músicas todas as semanas. E nem todas viram. É difícil. Cobro dos MCs com quem trabalho para virem sempre com a ideia de melhorar a letra. Contar uma história, passar uma mensagem. Isso além de ter uma melodia que pegue.”

Letra “feminista”

No caso de “Malandramente”, Nandinho diz que pensou prestar homenagem as mulheres, tradicionalmente objetificadas em rimas do funk. A letra, fictícia, fala de uma menina que seduz os MCs em uma balada e que, na hora da “ação”, resolveu dar um “perdido”. Todas as estrofes foram construídas a partir da métrica do título, que virou melodia na cabeça do funkeiro.

“Quando a bênção da música veio, pensei: ‘cara’, preciso fazer rum funk que levante a moral e a auto estima das meninas. Porque hoje o funk tá muito a menina faz isso, faz aquilo e vai fazer com todo mundo. Eu precisava mudar isso aí”, entende Nandinho, que, no entanto, usa os termos “safada” e “madeirada” na música. “Mas aí não é porrada. É uma coisa mais sexual mesmo (risos).”

Para Nandinho, o êxito viral se deve, em parte, à presença e carisma de Nego Bam. Antes de “Malandramente”, o MC já era conhecido por bombar nas redes sociais. Depois dela, chegou até a ser chamado de “Drake brasileiro”. Um meme ambulante. E agora estiloso.

“É bom dar o crédito para esse pessoal. Antes de eu estourar, eles já vinham me seguindo, com as paródias. Esses memes vêm de todo o lugar do Brasil. Tem uma página, a South America Memes, que também ajudou muito a fazer a música acontecer”, lembra Nego Bam.

A lista de versões de “Malandramente” é extensa. De banda de rock a uma interpretação do Drake “real”, passando por um simpático —e estranho— japonês sanfoneiro e uma paródia garoto que só queria ir à balada, mas que antes precisava “tirar o lixo aí”.

“Minha favorita é a do Bob Esponja. Minha filha adora o Patrick. Agora teve uma do Bon Jovi, cantando perfeito, que também é demais”, escolhe Nandinho.

A estratégia para evitar o sumiço pós-internet, o que acontece com tantos, já foi traçada pela dupla: “Não acho que isso vai acontecer com a gente. Vamos continuar trabalhando dom o Dennis. O cara tem 20 anos no mundo do funk e é ‘brabo’ demais.”

UOL/ Fronteira Online