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Cuidadora adota idosa que viveu durante 50 anos em hospital

Pais e Filhos
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26/10/2017 14:34

Glaucia Gomes levou a mulher sem identidade para casa, em Araraquara, SP, para evitar que ela fosse para um abrigo, após Beneficência Portuguesa ser fechada há dois anos

A cuidadora Glaucia com Cotinha, em Araraquara (Foto: Fabiana Assis/G1)
Legenda da foto

Parece roteiro de filme: uma mulher sem identidade mora por 50 anos em um hospital que, de repente, é fechado. Ela fica sem teto e está prestes a ser levada para um abrigo, mas é adotada por uma das funcionárias do hospital que, embora tenha perdido o emprego inesperadamente e esteja sem dinheiro, teve o coração tocado pela situação da idosa.

A história é real e aconteceu há dois anos, em Araraquara (SP). Só veio à tona agora, porque as personagens passam por algumas dificuldades financeiras. Quem conta este enredo é a cuidadora Glaucia Andressa Santos Gomes, de 29 anos. Ela conheceu Cotinha quando conseguiu um emprego de copeira no hospital Beneficência Portuguesa, em 2010, a adotou seis anos depois. “Vou cuidar dela o resto da vida”, contou.

Hospital virou casa após acidente

Mais tarde Glaucia descobriu que Cotinha, ou Cota, como prefere chamá-la, morava há muito tempo no hospital. Cotinha vem de Cota, apelido dado antigamente às mulheres de nome Maria. Ninguém sabe qual o nome verdadeiro da mulher, nem sua idade, nem mesmo quando ela chegou ao hospital.

O que contam é que ela chegou ao hospital ainda criança, junto com o irmãozinho que tinha uns 4 anos, vítimas de um atropelamento por caminhão. O irmão teria chegado morto e ela totalmente enfaixada, apenas com os olhos aparecendo.

“O pessoal fala que foi um acidente perto do [bairro] Quitandinha. Falam que quando ocorreu o acidente ali ainda não tinha o pontilhão que tem hoje. Como o pontilhão tem em torno de 50 anos, a gente acredita que ela tem entre 62 e 65 anos”, disse Glaucia. “Dizem ainda que ela ficou seis anos enfaixada, internada no hospital, período que teria sofrido muitas dores”, completou.

A origem de Cotinha, as circunstâncias como ela chegou ao hospital e o porquê de ter morado tanto tempo lá são desconhecidas. As poucas informações que existem sobre ela foram passadas boca a boca por funcionários, sem ter como comprovar sua veracidade.

Ao longo dos anos, muitas pessoas trabalharam no hospital e todos conheceram a história de Cotinha lá. Acreditam que as freiras que faziam o atendimento do hospital na época que ela chegou se sensibilizaram com a sua situação e, como nunca ninguém a procurou, passaram a cuidar dela.

“Contam que ela trabalhava ajudando as irmãs, principalmente uma que se chamava Tereza. Dizem até que dormiam no mesmo quarto”, afirmou Glaucia.

Glaucia e Cotinha se conhecem

Mais tarde, o local foi privatizado, as freiras foram embora e Cotinha ficou. Por muito tempo ela morou em um quarto ao lado da lavanderia, onde trabalhava passando e dobrando roupas. Depois os funcionários pediram para que ela fosse transferida, devido aos seus problemas respiratórios que eram agravados pela umidade da lavanderia. Ela, então, foi para a cozinha, onde limpava mesas e guardava utensílios. Foi lá que Glaucia a conheceu. “Eu vi aquela senhora limpando mesas e achei que fosse mais uma funcionária”.

Além de Glaucia, outros funcionários se importavam e cuidavam de Cotinha. Alguns a levavam para passar o fim de semana em casa. Também saiam com ela para tomar um sorvete ou comprar roupas. Consta que houve tentativa de tirar uma documentação para ela, mas não conseguiram na época.

De sem teto a filha obediente

Em 2016, com o fechamento inesperado do hospital, cerca de 300 funcionários foram para a rua e a situação de Cotinha foi denunciada. A polícia levou a idosa para uma casa que abriga mulheres vítimas de violência. Preocupada, Glaucia procurou as autoridades e antigos chefes do hospital para descobrir o seu paradeiro.

“Eu fui atrás para ver como ela estava. Pegaram ela na quinta-feira à tarde e eu fui na sexta-feira de tardezinha. Ela chorava sem parar e repetia que queria ir embora. Eu prometi que em três dias tirava ela de lá, mas eu falei da boca pra fora, só para confortar, não acreditava que ia conseguir. Aí, eu liguei para uma assistente social que era amiga da minha mãe, liguei para as pessoas certas e na segunda-feira eu peguei ela”, contou.

Hoje Cotinha é uma senhora idosa. Visivelmente tem alguma deficiência mental e não fala, mas tem boa interação com as pessoas.

Quando conheceu Cotinha, Glaucia não podia imaginar que seu destino seria definitivamente ligado ao dela. A cuidadora levou a idosa para sua casa, colocou-a no quarto da filha e passou a tomar conta dela.

“Quando o hospital fechou, eu entrei em desespero e falei: ‘não posso abandonar a Cota. Se faço isso agora, ela vai ficar ao Deus dará. Não vai ter alguém para cuidar dela. Eu fui mais na emoção, não pensei no dia de amanhã. Eu pensei que ia pegar, ela ia ficar comigo um tempo e depois a gente ia voltar para Beneficência. Ela ia voltar para o cantinho dela, eu ia voltar a trabalhar”, contou Glaucia.

Não foi assim que aconteceu. O hospital fechou definitivamente e Glaucia conseguiu a guarda de Cotinha. Agora, ela tenta tirar documentos para a mulher que tem apenas uma certidão na qual recebeu o nome de “Maria de Tal” e tem origem desconhecida.

Ligação e rotina juntas

Glaucia acolheu Cotinha em sua casa, que é alugada. A família não conta com muitos recursos. O marido trabalha como mensageiro e Glaucia conseguiu sobreviver por pouco tempo com o pouco que recebeu do hospital e hoje trabalha como cuidadora em uma casa de repouso.

Mas nenhuma dificuldade financeira destruiu a ligação entre as duas mulheres. Cotinha foi acomodada no quarto da filhinha de Glaucia, Emilly, de 3 anos, que passou a dormir no quarto dos pais. A rotina da família mudou. As duas passaram a ir juntas para todos os lugares, inclusive para o trabalho de Glaucia.

A rotina de Cotinha é simples. Na maior parte do tempo, ela fica vendo TV. A idosa caminha com alguma dificuldade – provavelmente uma sequela do acidente – , mas é bastante independente. Só exige cuidados especiais na alimentação, que tem que ser pastosa porque ela não come sólidos.

“Ela é muito inteligente, ela pega tudo muito fácil. Ela decora muita coisa. Se eu falo algo, ela entende, mas tem que fazer gesto”, disse Glaucia que afirma que ganhou uma filha obediente. “Eu mando tomar banho, ela vai. Mando dormir, ela vai. Não me dá um trabalho.”

Comunicação por gestos

Cota se comunica por gestos, às vezes repete algumas palavras, às vezes diz algumas palavras pela metade. Para falar com ela, Glaucia faz vozinha de criança e recorre à ajuda de gestos.

É assim mesmo, como uma criança, que Glaucia enxerga a Cotinha. “Faltou a Cota crescer. Ao mesmo tempo em que ela sabe o que é errado, que cresceu trabalhando, ela brinca como a Emilly. Ela tem duas bonecas que ela ama de paixão e esconde porque tem ciúmes. Um dia eu entrei no quarto dela à noite e ela estava fazendo a boneca dormir”, contou.

Aliás, a boneca, que Cotinha chama de ‘coreca’ é uma das poucas coisas que faz ela sorrir. A outra é quando é perguntada sobre o que sente por Glaucia.

Futuro juntas

Por dois anos, a história de Cotinha ficou no anonimato, mas agora Glaucia resolveu buscar ajuda para custear a alimentação da idosa. As duas passaram alguns sufocos, como quando Cotinha teve pneumonia, mas a cuidadora foi atrás e conseguiu um médico que financiasse o tratamento. Hoje, a idosa é totalmente saudável. “Ela não toma remédio algum”, disse.

Recentemente, Cotinha caiu na porta de casa e quebrou o braço. Um tombo bobo, mas que teve consequências sérias. Diante disso, Glaucia percebeu que o futuro será de bastante trabalho. “Daqui para frente, ela só vai decair”, explicou porque resolveu buscar apoio para cuidar de Cotinha até que consiga regularizar a situação da idosa e conseguir uma aposentadoria para ela.

Quem quiser ajudar com roupas ou alimentos pode entrar em contato com a Glaucia no telefone (16) 98200-9625 ou 99963-2598.

“Hoje estou vivendo a consequência do meu sentimento. Eu não parei para pensar como ia ser o dia de amanhã. Mas eu não vou abandonar ela. Eu tenho dificuldade de cuidar dela, só nessa parte de alimentação. Então, vamos seguir em frente. Ela vai ficar comigo, vou cuidar dela o resto da vida dela”, garantiu a cuidadora.

Glaucia com as duas 'filhas': Emilly, de 3 anos, e Cotinha de 65. (Foto: Fabiana Assis/G1)

Glaucia com as duas ‘filhas’: Emilly, de 3 anos, e Cotinha de 65. (Foto: Fabiana Assis/G1)

G1