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Danilo Silva volta às origens como zagueiro e fala até russo para projetar acesso

Esportes, Nacional
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13/10/2017 08:50

Em entrevista ao GloboEsporte.com, novo titular de Guto Ferreira discorre sobre momento atual, título da Libertadores em 2010 e os longos sete anos no futebol ucraniano

Danilo Silva assumiu titularidade após lesões de companheiros (Foto: Eduardo Deconto)
Legenda da foto

Danilo Silva deixou para trás sete longos e vitoriosos anos no Dínamo Kiev, na gélida capital da Ucrânia, para retornar a Porto Alegre e retribuir toda sua gratidão ao Inter na saga do clube na Série B. Em solo gaúcho, o defensor encontrou um ambiente repleto de mudanças desde que deixou o Colorado, em 2010, com o bi da Libertadores em mãos. Mas também pôde selar um regresso a suas origens, como zagueiro, após mais de meia década na lateral direita, para soterrar sete meses de sofrimento em recuperação de uma cirurgia, devido a uma lesão na cartilagem do joelho.

A espera, aliás, demandou tempo, dedicação e paciência de sobra para cavocar seu espaço na equipe titular colorada – algo que almejava desde o início do ano – mesmo ainda distante dos “100%”, como o próprio admite. Perto dos filhos e da família e envolto em paixão pelo Colorado, o defensor assumiu a titularidade da zaga ao lado de Víctor Cuesta após as lesões de Klaus e Ernando. E trata de fazer o possível para usar a sequência e ter vida longa na posição.

– O Danilo está tentando crescer para jogar como antes para assumir e se manter como titular. E que seja por bastante tempo. Vou me esforçar para que aconteça. É jogo a jogo. Minha volta foi por gostar muito do clube. Tinha uma paixão muito grande. Era um projeto familiar, pelos meus filhos. Poder também ajudar o Inter a voltar à Série A. Era o projeto de poder voltar ao Inter e continuar o processo do Danilo, zagueiro de 2010, que disputou a primeira partida da Libertadores muito bem. E continuar aquela história – afirma o zagueiro.

O zagueiro de 30 anos fita o futuro com a camisa do Inter. Mas não consegue desassociar por completo da longa vivência no leste europeu. Mais “firme” após passar tanto tempo em solo ucraniano, o defensor absorveu a cultura local. Por lá, costumava cantar o hino com a mão no peito e ainda conserva a fluência no russo. A ponto de usar o idioma soviético para falar sobre a ansiedade de garantir o acesso pelo Inter (confira no vídeo acima).

Você fala que não está 100%. Sente algum incômodo? Não. É um trabalho que você sempre tem que fazer manutenção, sempre fortalecendo. É questão de jogo. Ritmo de jogo, de ter o desenvolvimento, ganhar confiança para fazer coisas que fazia ao natural. De repente não sai. Você fica um pouco: “será que eu faço novamente”. É isso que está custando a voltar. Mas na sequência de jogos, as coisas vão se solidificando. E eu vou dando um up.

E ter um time que é líder da Série B e está bem encaixado ajuda, né? Sim. Você entrar na equipe quando está na pressão, o padrão de jogo não está definido… A gente estava sofrendo bastante para encontrar esse padrão. Você voltando de lesão num momento desses acaba sendo mais difícil ainda. Quando a equipe está padronizada, você muda uma peça ou outra, as coisas fluem como sempre acontecem. Hoje, trocam as peças e a equipe está muito bem. Mas quando está tudo desordenado é mais difícil.

“Qualquer jogador que volta depois de um grande período na Europa pensa em atuar. Isso é fato. Eu não esperava que seria uma volta tão custosa após a operação. Foi sofrido. Mas agora o trabalho vai fluindo, vai acontecendo” (Danilo Silva).

Você fala da pressão, eu volto a sua reestreia: na lateral direita, contra o Paysandu, no Mangueirão, no último jogo do Zago…
Umidade, muito calor…. Em 2009, joguei de lateral-direito aqui. Em 2010, voltei para a zaga. Me sentindo bem, porque era de origem. Eu fui para a Ucrânia, o Dínamo me contratou como lateral-direito, porque geralmente é um zagueiro pelo lado direito. Não é como no Brasil. Então, não adianta eu dizer que sou um lateral-direito de ofício. Que vai para a frente, que arruma um drible. Não é a minha. De origem, no Brasil, me sinto melhor como zagueiro.

Até por isso, seu retorno ao Inter tem a ver com uma volta às origens, para atuar como zagueiro? Sim. Como eu disse, eu fiquei sete anos no Dínamo. Claro que eu joguei como zagueiro, em uma temporada, e em outro ano fiquei revezando. Mas fiquei mais como lateral-direito. Agora, voltando para o Brasil, pretendo voltar às origens e seguir como zagueiro. É como me sinto melhor no Brasil.

Quando você chegou esperava ser titular? Falo isso porque demorou e só agora enfim está vindo a oportunidade.
Eu acho que qualquer jogador quando volta depois de um grande período na Europa pensa em voltar e atuar. Isso é fato. Eu respeito todos os colegas. Mas qualquer jogador que chega a um clube pensa em jogar. Eu não esperava que seria uma volta tão custosa após a operação. Foi sofrido. Isso levou um tempo. Mas agora, o ambiente da maneira que está, o trabalho vai fluindo, vai acontecendo.

Como fica a cabeça do jogador ao ver toda uma expectativa não se concretizar? Eu sempre tive dentro de mim que se eu não estou bem, eu tenho que trabalhar para ficar bem. Tenho que aprimorar, melhorar. O Klaus estava melhor, de repente o Ernando estava melhor. Tem que trabalhar e esperar o momento. É oportunidade. Tem que agarrar. Estou me sentindo melhor, com mais confiança para desenvolver. Não aconteceu de chegar, ser titular. Mas agora está acontecendo. Tem que fazer acontecer para as coisas fluírem.

A zaga do Inter tem o Cuesta consolidado desde o início do ano. Aí, entram Klaus, Ernando, Léo Ortiz, mais cedo até o Paulão. Há uma sina do lado direito? Não. Pela situação que o clube veio passando, do ano passado para cá, até acertar a equipe… É uma oportunidade. O Danilo está tentando crescer para jogar como antes para assumir e se manter como titular. E que seja por bastante tempo, tomara Deus. E que dure muito tempo. Vou me esforçar para que aconteça. Mas não tem como dizer se vou ficar um ano, ou dois anos, três anos. Não dá para saber. É jogo a jogo.

Você foi campeão da Libertadores pelo Inter em 2010. Na Ucrânia foi bicampeão da Liga e da Copa. O que almeja para sua carreira na volta ao Brasil? O Inter abriu as portas quando eu precisei. O Fernando Carvalho me deu oportunidade de fazer meu trabalho, e aconteceu. Tenho uma gratidão pelo Inter, pela minha carreira. Foi um 2009 um pouco contestado, porque joguei de lateral-direito, não era a minha, mas abriu porta para eu poder ir para o Dínamo. Então, a minha volta foi por gostar muito do clube. Tinha uma paixão muito grande. Era um projeto familiar, pelos meus filhos. Poder também ajudar o Inter a voltar à Série A. Era o projeto de poder voltar ao Inter e continuar o processo do Danilo, zagueiro de 2010, que disputou a primeira partida da Libertadores muito bem. E continuar aquela história de 2010 para seguir ela nesses anos de contrato e continuar a carreira em alto nível.

Falamos da Libertadores. Aqui, você reencontra D’Ale e Damião. Como é a resenha do trio de 2010? É bacana. Muito boa. O D’Ale é capitão, ajuda para caramba no vestiário. É sensacional. Briga bastante pelo grupo. E concentro com Damião. A gente dá risada junto. É um baita de um cara.

“A gente estava sofrendo bastante para encontrar esse padrão. Você voltando de lesão num momento desses acaba sendo mais difícil ainda. Quando a equipe está padronizada, você muda uma peça ou outra, as coisas fluem”

E joga vídeo game com ele? Não jogo, não. Eu sou das antigas. Prefiro assistir a um filme, ler alguma coisa. Ficar mais tranquilo.

Você tem o hábito da leitura? Eu leio mais matérias, principalmente. Eu tenho alguns negócios, tento aprimorar nos negócios que tenho para buscar um futuro pós-futebol. Tenho marca de café. Começo a trabalhar em cima disso para preparar o campo. A gente trabalha.

Você é empreendedor, então? Eu trabalho preparando esse futuro. Onde eu moro, é a terra do café em São Paulo. É a cidade da minha esposa. Foi onde comecei minha carreira, em clube da quinta divisão. Conheci minha esposa quando tinha 16, 17 anos e escolhi a cidade para morar. Se eu vou morar aqui, preciso trabalhar com alguma coisa. O que temos? Café. De alguma maneira para poder trabalhar alguma situação, com café. Tenho uma marca, estrutura diferente, como projeto de franquias. Mas primeiro, penso no Inter. Toda essa situação, deixo para a família. Mas é algo que eu procuro aprimorar e estudar bastante para o futuro.

O que é mais difícil: se recuperar da lesão, ser titular do Inter ou falar russo? Russo eu falo bem, viu (risos). Pelo período que fiquei lá, pude trabalhar bem o russo. Tenho um pouco mais de facilidade. Foi mais custosa a parte da reabilitação e conseguir voltar a jogar melhor. Ter um bom padrão e ser titular do Inter. Estava sendo mais difícil.

Consegue falar em russo “tomara que tudo dê certo, e o Inter volte à Série A, que é seu lugar”? (Resposta em russo durante 40 segundos incompreensíveis à dupla de repórteres).

Acho que você falou mal da gente (risos)… Mas pode traduzir? Primeiro, o que poderia pensar em dizer. Na verdade, se Deus quiser, em três, quatro partidas podemos vencer e voltar à Série A. Esperamos esse momento, que possamos chegar à Série A. E ter bons momentos, ter uma ótima temporada.

“A minha volta foi por gostar muito do clube. Tinha uma paixão muito grande. Poder também ajudar o Inter a voltar à Série A. E continuar aquela história de 2010”

Queria que falasse da estadia na Ucrânia. Como é morar durante todo esse tempo por lá? No começo foi um choque. É muito frio. É uma cultura forte. Bem ríspida. Você chega e tem um impacto cultural, um impacto do ambiente, tudo. Até mesmo do futebol, que é mais chegado, de força. No começo, você encostava em alguém, não tinha falta. Tanto que o Dudu, do Palmeiras, sofreu bastante quando chegou lá. Era muito contato. Esse começo foi mais difícil. Mas depois de um ano, estava adaptado.

Leva alguma coisa da cultura de lá? É um país muito patriota. Em todo o lugar, você vê a bandeira da Ucrânia. No hino, todos se levantam, cantam com muito fervor. É um país bacana, bem seguro apesar dos conflitos. Sempre foi um lugar tranquilo. Você ficando muito tempo lá, você pega alguma coisa. Minha esposa fala que eu estou um pouco mais ucraniano. Um pouco mais duro. Eles são da União Soviética. É um país que tem 23, 24 anos. É um país novo com o pessoal mais velho que passou por guerras. São meio frios e meio duros.

GE