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Do ultimato à vice-liderança em um mês: como Guto superou turbulência no Inter

Esportes, Nacional
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23/08/2017 10:33

Do ultimato à vice-liderança em um mês: como Guto superou turbulência no Inter

Guto Ferreira supera turbulência e dá outra cara ao Inter (Foto: Ricardo Duarte/Internacional/Divulgação)
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Final de partida, derrota por 2 a 1 para o Vila Nova, e a situação cada vez mais alarmante do Inter na Série B ecoa no silêncio das arquibancadas do Serra Dourada. O presidente Marcelo Medeiros e o vice de futebol Roberto Melo logo rumam ao vestiário. E só deixam o recinto 40 minutos mais tarde, com semblantes fechados após uma longa reunião com Guto Ferreira, seguida de um ultimato: seria obrigatório não só vencer como também convencer nos dois jogos seguintes em casa para seguir no cargo.

A cena acima completa um mês exato nesta terça-feira, mas parece bem mais distante, em um passado remoto do Colorado, como a atual série de cinco vitórias consecutivas pode provar. De fato, o ambiente de pressão deu lugar à mobilização total do elenco. A vitória obrigatória veio no 2 a 0 sobre o Oeste. E no jogo seguinte, com um 3 a 0 aplicado sobre o Goiás de Argel Fucks. E no seguinte. E no seguinte, até deixar de ser obrigatória para virar rotina na temporada colorada, com mais um triunfo conquistado no último sábado, sobre o ABC, no Frasqueirão, pela 21ª rodada. Do ultimato à vice-liderança em 31 dias, o Colorado enfim se afirmou em 2017, a ponto de ver o acesso como algo concreto em seu horizonte.

– A gente procurava ter regularidade na competição. A gente oscilava muito. Então acho que o mais importante é manter o desempenho, ter regularidade, mas não relaxar. No futebol, as coisas se revertem muito rápido. Menos de um mês atrás, éramos sextos colocados. E estamos a um ponto do líder e a cinco do terceiro – analisou o vice de futebol Roberto Melo após a vitória em Natal.

As marcas e os números consolidados pela equipe mostram quão significativa é a sequência atual. A começar pela própria série de cinco vitórias, inalcaçada pelo clube desde 2015, com Diego Aguirre, no Gauchão. O Inter saltou da sexta colocação na tabela à vice-liderança, ao somar 15 pontos seguidos de um total de 39 e engatou sua permanência mais longeva no G-4. E com toda a pinta de que irá perdurar até o final do campeonato. O Colorado está a um ponto do líder América-MG e abriu quatro de vantagem ao terceiro colocado, o Vila Nova.

Tudo isso, conquistado pela combinação de fatores listados abaixo:

Consolidação de esquema e estilo de jogo

A fase ainda era bastante nebulosa quando Guto Ferreira lançou pela primeira vez, com ideias mais concretas, o esquema no 4-1-4-1 para encarar o Santa Cruz, no Arruda. A formação era repleta de reservas, até com Ernando entre os jogadores que iniciaram a partida. Mas serviu como uma espécie de embrião para o atual momento da equipe, que penou até consolidá-lo, verdade seja dita. Do 0 a 0 no Recife à vitória por 2 a 0 sobre o Oeste se passaram sete jogos de irregularidade e apenas dois triunfos.

Com Eduardo Sasha como surpresa na equipe titular diante do rival paulista, Guto enfim viu sua equipe render os frutos esperados até chegar à mecânica atual de jogo, com aproximação e triangulações constantes pelos lados seguidas de cruzamentos, encaixe e intensidade na marcação alta e rotatividade nas peças de frente. Não é raro ver Leandro Damião deixando a área para os ingressos de Pottker e Sasha. Os extremas, os meias e os laterais também alternam bastante suas posições para abrir espaços nas defesas rivais. Deu tão certo que o treinador repetiu a escalação titular nos últimos três jogos da equipe – todos com vitória.

Tempo para trabalhar e mais de 11 “titulares”

A repetição da equipe pelo terceiro jogo seguido, com grandes chances de engatar a quarta partida consecutiva diante do Paysandu, salta aos olhos. Mas Guto Ferreira soube usar as duas semanas seguidas sem jogos para ampliar o repertório de jogadas de sua equipe, como fez, por exemplo, no decorrer da preparação para a partida contra o ABC. O técnico usou os cinco dias para focar em reduzir o número de cruzamentos e exercitar a valorização da posse de bola, com inversões constantes de jogo.

E o maior período de treinamentos serviu ainda para criar reservas imediatos, com peças atuando especificamente em funções que podem demandar trocas no time principal. Trata-se de uma estratégia para mecanizar as ideias de jogo até entre os suplentes. Os casos mais emblemáticos são os de Camilo e Nico López. O meia é trabalhado preferencialmente para substituir Sasha, como extrema, ao passo que o atacante uruguaio costuma ser testado e desenvolvido para ter mais intensidade e poder ser alternativa a Pottker. Além deles, Carlos surge como substituto de Leandro Damião e Felipe Gutiérrez, de D’Alessandro.

Reforços cirúrgicos

É impossível desassociar a série de vitórias com as chegadas de Leandro Damião e Camilo. A dupla até ficou fora da vitória por 2 a 0 sobre o Oeste e só estreou no 3 a 0 sobre o Goiás – com direito a gol do atacante – mas marcou presença nas demais partidas, com representatividades distintas.

O centroavante logo assumiu a titularidade absoluta por apresentar a característica de força e combatividade tão pedida por Guto para encaixar em sua equipe – algo que não tinha, por exemplo, com Nico, o titular anterior. Com Damião, o técnico tem uma peça capaz de dar presença de área, segurar a linha defensiva rival e atrair por vezes dois marcadores para abrir espaço aos companheiros. Mesmo sem marcar nos últimos três jogos, o jogador tem seua parcela na boa fase.

Assim como o ainda reserva Camilo. O meia costuma sair do banco para dar boa contribuição no setor de criação com habilidade para administrar resultados e intensidade e efetividade, em caso de necessidade de buscar a vitória. Como fez recentemente, ao cobrar dois escanteios na cabeça de Klaus para construir o triunfo por 3 a 1 sobre o Londrina.

Enfim, a força do Beira-Rio

Entre protestos violentos e inconformidade da torcida, o Inter atribui boa parte da turbulência da temporada aos resultados irrisórios conquistados dentro de casa ao longo do primeiro turno. Dona da melhor campanha como visitante na Série B, a equipe tardou a engrenar devido ao aproveitamento até de Z-4 como mandante que apresentou na primeira parte da Série B. Um panorama que foi modificado. Das dificuldades de furar retrancas à boa fase, o Colorado venceu seus últimos três compromissos no Beira-Rio e enfim conseguiu ter aproveitamento superior em seu reduto do que fora de casa.

Solidez defensiva e efetividade

É como se fosse uma bola de neve “positiva”. A equipe consolida o estilo de jogo e se organiza até encontrar o equilíbrio dos setores. Com o equilíbrio, vêm a solidez defensiva e a efetividade no sistema ofensivo. E aí, naturalmente, surgem as vitórias, com um retrospecto bastante representativo, de 13 gols anotados e apenas um sofrido nos últimos cinco jogos, e que se reflete na tabela. O Inter é dono da melhor defesa da Série B, com 14 gols sofridos, e do segundo ataque mais efetivo, com 31 gols antoados. O Londrina tem o ataque mais poderoso, com 33 tentos.

No trabalho de retomada, Guto apostou na recuperação de atletas desacreditados. Quem mais chama atenção é Eduardo Sasha. Após o longo período afastado em função da cirurgia no tornozelo direito, o atacante começou a ser utilizado. E aproveitou a chance. Nesta sequência positiva, é um dos expoentes. São três gols nos últimos cinco jogos. Além do faro de gols, é vital para o esquema em razão da recomposição quando o Inter é atacado.

Klaus também ganhou espaço. O zagueiro foi lembrado pelo técnico após quatro meses sem entrar em campo. E, se no início, oscilou junto com os companheiros, agora aparece como um dos fiadores do sistema defensivo. Ao lado de Víctor Cuesta, garante a tranquilidade a Danilo Fernandes, que só levou um gol nas últimas quatro partidas.

E há ainda Cláudio Winck. Após retornar do empréstimo à Chapecoense no início do ano, parecia fadado ao ostracismo. Esperava propostas para deixar o clube. Sem ofertas, acabou rebaixado ao sub-23. Porém, a inconstância dos jogadores da função, principalmente após a saída de William, negociado ao Wolfsburg, o fez receber nova chance. Disputou nove partidas e já tem um gol. Terá seu vínculo estendido até 2019.

GE