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Incerteza eleitoral faz empresas buscarem mais proteção cambial

Economia
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03/10/2018 11:37

Temendo perdas, importadores e exportadores elevaram a busca por hedge diante da indefinição na corrida presidencial; quantidade de contratos cresceu 40% este ano

Nota de US$ 5 dólares — Foto: REUTERS/Thomas White
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Em tempos de dólar instável, a procura por contratos que protegem contra as oscilações da moeda estrangeira (hedge) cresceu tanto entre importadores que temem sua valorização, quanto entre empresas exportadoras de olho no risco de uma possível queda.

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O hedge cambial é um contrato que dá o direito de comprar ou vender moeda estrangeira no futuro por uma cotação pré-combinada. É como um seguro que protege a empresa das bruscas variações do câmbio. Ele é muito usado por companhias com custos ou receitas em dólar.

Entre janeiro e agosto, o número de contratos deste tipo no mercado de balcão (fora da bolsa) – tipo de hedge mais procurado por empresas que atuam com comércio exterior – cresceu 40% frente ao mesmo período do ano passado, segundo dados da B3 fornecidos ao G1.

O volume de dólares negociado neste mercado nos oito primeiros meses do ano foi de US$ 211,4 milhões, 15% maior que no mesmo período do ano passado, com uma procura mais elevada a partir de abril.

“Esse volume [de dólares negociados] costuma ser mais forte em ano de eleições. Ainda mais quando o cenário é de incerteza e a expectativa é de mais volatilidade pela frente”, explica Fábio Zenaro, diretor de produtos de balcão, commodities e novos negócios da B3.

A forte oscilação do dólar pode causar prejuízos a companhias que negociam no exterior. Uma importadora de bebidas pode inviabilizar seu negócio se a cotação subir demais, já que nem sempre é possível repassar o aumento de preços no mercado interno.

Empresas com boa parte de sua dívida em dólares, como a Petrobras e importadores de insumos e maquinário, também sofrem com a alta da moeda. Por isso, costumam adotar o hedge regularmente ou quando a cotação atinge um patamar crítico para seus negócios.

Da mesma forma, uma companhia que exporta grãos tem interesse em se proteger de uma possível desvalorização do dólar, para evitar perdas de receita. Esse movimento é bem comum entre companhias que vendem um grande volume para outros países, como nos setores de commodities, siderúrgicas e papel e celulose.

Mix de incertezas
Uma combinação de cenário conturbado no exterior, greve dos caminhoneiros e indefinição quanto à disputa eleitoral levou a moeda dos Estados Unidos a oscilar desde janeiro entre R$ 3,13 – o menor valor de fechamento do ano –, até o pico histórico de R$ 4,1952 em 13 de setembro.

Na avaliação do professor do Labfin da FIA (Fundação Instituto de Administração), Marcos Piellusch, os números mostram que, já prevendo um cenário de forte volatilidade, as empresas enxergaram uma tendência de alta do dólar e fecharam os contratos com antecedência.

“Lá no começo do ano pouca gente apostaria que o dólar ficaria estável. As empresas se anteciparam a esse movimento porque elas buscam o máximo de previsibilidade, para não prejudicar a imagem da própria gestão”, considera Piellusch.

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Mesmo havendo outras opções para se proteger das variações do câmbio (como o mercado futuro na bolsa ou swaps cambiais), o hedge de balcão é o mais procurado por empresas ligadas ao comércio porque os custos são mais baixos que na bolsa e os contratos são mais flexíveis quanto a valores e prazos.

Apostas sobem nas duas pontas
Enquanto o número de contratos de compra (que apostam na alta do dólar) cresceu 21% no acumulado do ano até agosto, as negociações que garantem uma proteção contra a queda da moeda estrangeira (venda) avançaram ainda mais, 61%.

Na prática, mesmo com a tendência de alta da moeda, as exportadoras (que têm receita em moeda estrangeira) aumentaram mais sua exposição ao hedge que as importadoras, que têm custo em dólar.

Uma explicação, segundo Zenaro, da B3, é o fato de os exportadores terem recebíveis em dólar mensalmente e costumarem esperar o melhor momento para vender a moeda, na tentativa de travar uma taxa de câmbio mais interessante.

“Mesmo com o dólar subindo bastante, o exportador pode segurar um pouco essa venda se acredita que a moeda pode subir ainda mais”, explica o diretor da B3. “Para ele, quanto mais alto, melhor”.
Segundo Piellusch, da FIA, muitas exportadoras também têm dívida em dólar e procuram mitigar o risco nas duas pontas.

“O fato de o dólar ter subido tanto pode ter levado as exportadoras a querer se proteger contra uma queda posterior, para atrelar sua receita a uma cotação mais alta”, explica o professor.

G1