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Mãe aos 16 anos, catarinense vai de recepcionista a CEO de empresa

Dicas, Entretenimento
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12/05/2018 10:41

Silvia começou a trabalhar para sustentar o filho e depois de quase ser demitida do 1º emprego, hoje está à frente de uma empresa que faturou R$ 52 milhões em 2017

Atualmente, Silvia é CEO da Cianet, empresa que no ano passado faturou R$ 52 milhões (Foto: Beatriz Cardoso)
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“É um metro de meio de pura coragem”, como os colegas definem a catarinense Silvia Folster. E não à toa: sua história inclui superação pessoal, inserção em um mercado dominado por homens e o que se tornou sua maior motivação: um filho aos 16 anos. Sua vida profissional começou em uma empresa de telemarketing e, hoje, aos 46 anos, ela é CEO da Cianet, empresa de tecnologia de Florianópolis que em 2017 faturou R$ 52 milhões.

Quando perguntamos sobre sua história, Silvia já começa com esse episódio que foi um divisor de águas: “engravidei aos 16 e meus pais pediram para casarmos. Só que não tínhamos maturidade para manter um relacionamento, então separamos logo depois. Mas sabia que eu tinha um filho e que a decisão significava que precisava trabalhar para sustentá-lo”, conta ela.

Filha de um pedreiro e uma dona de casa, ela determinou-se a fazer o possível para que seu filho, Glaucus, tivesse uma vida mais confortável do que ela mesma teve, e também melhorar a condição financeira dos pais. Era um sonho ousado para uma adolescente que mal tinha conseguido terminar o Ensino Médio e em uma época em que as mulheres tinham ainda mais dificuldades para se estabelecerem no mercado de trabalho.

“Sai doida atrás de emprego. Pegava o jornal, via as possibilidades e ia atrás”, conta ela, que logo conseguiu uma oportunidade em uma empresa de telemarketing. “Mas depois de 4 horas, entrei na sala do chefe, sentei e comecei a chorar. Precisava do emprego, mas não tinha o mínimo jeito pra fazer aquilo”, lembra ela.

Diante da história, o chefe decidiu indicá-la para um trabalho como secretária em uma churrascaria de Florianópolis. Porém, seis meses depois ela percebeu que a situação financeira do estabelecimento não estava boa e que provavelmente seria demitida. “Minha chefe me chamou e sugeriu que eu procurasse outro emprego, mas eu adorava o trabalho e não queria sair”, relata.

Mesmo resistindo, quando surgiu uma oportunidade em uma empresa de tecnologia, como recepcionista, precisou refletir: “Minha chefe me chamou e disse: ‘a tecnologia é o futuro do mundo. Isso aqui é uma churrascaria. Lá você tem chance de crescer’”, lembra Silvia, grata pelo conselho da antiga chefe que, além do incentivo, ainda se dispôs a ir com ela no fim de semana na nova empresa, para ajudá-la a organizar o trabalho.

Na nova empresa, até então somente homens trabalhavam, Silvia admite que havia desconfiança quanto à permanência de mulheres nesse setor. Com receio de perder o emprego naquele universo masculino, ela passou um ano sem praticamente se comunicar com os colegas. “Até eu perceber que eles eram muito legais e que não tinha motivo para ter medo de não ser aceita. Eles passaram a ser amigos, não só meus, mas também do meu filho. Se tornaram todos ‘tios dele’”, lembra. Depois disso, ela inaugurou uma nova fase profissional e também sua ascensão definitiva.

De recepcionista à vendedora

A empresa desenvolvia softwares para engenharia e quando ela atendia o telefone, como recepcionista, percebia que às vezes as dúvidas eram tão simples que, se soubesse mais sobre o produto, poderia ela mesma resolver. “Então eu comecei a estudar o negócio. Sempre que tinha oportunidade, perguntava aos engenheiros e anotava num caderno. Fiz uma apostila para me auxiliar”, afirma.

Foi assim que Silvia começou a não só responder dúvidas, mas também surgiram oportunidades para fazer vendas. Já havia passado de recepcionista à auxiliar administrativa, mas ainda ganhava pouco mais de um salário mínimo, e sua ansiedade por dar uma condição melhor ao filho seguia latente. “A partir disso, a empresa, que até então só tinha vendedores externos, decidiu criar um setor interno de vendas, mas, para minha decepção, não me chamaram”, lembra.

Segundo Silvia, no mês seguinte, quando teve acesso ao salário de uma das vendedoras, que ganhou três vezes mais que ela, abriu o jogo: “Disse que queria ir para o setor de vendas. Que poderia melhorar o faturamento da empresa e também crescer”, conta. Depois de alguma relutância, foi autorizada a mudar, mas o chefe foi enfático: “caso não dê certo, não tem volta”, ela ouviu.

Disposta a fazer dar certo, passou a permanecer na empresa mais do que gostaria. Enquanto isso, Glaucus ficava com a mãe e a irmã de Silvia. “Elas me ajudaram muito. Eu sabia que trabalhava muito, mas tentava fazer com que os momentos com ele fossem de qualidade. E ele sempre foi muito compreensivo”, diz.

E, apesar de ter que dedicar ainda mais tempo para o trabalho, nunca se arrependeu da mudança. “Eu amava o que fazia. Fiz praticamente uma faculdade de engenharia, eu conhecia o produto e conseguia inclusive ajudar as colegas”, comenta. E tinha razão quando disse que poderia crescer nesse setor.

De vendedora à gerente

Em pouco tempo, Silvia conta que começou a se destacar não só como vendedora, mas passou a auxiliar colegas de trabalho. Foi assim que, aos 22 anos, foi convidada para ser gerente do setor, para recrutar outros vendedores. O trabalho, assim, já não era apenas interno, o que exigiu, ao mesmo tempo, que ela se desdobrasse como mãe e gestora. Conforme Silvia, conseguiu isso sempre buscando manter uma proximidade com o filho e valorizando o tempo com ele. Nestes momentos, sendo apenas mãe. Sobre o trabalho dela, o filho sabia pouco. “Os amigos dele perguntavam: ‘o que sua mãe faz?’. Ele dizia ‘não sei, mas ela é muito importante. Ela até anda de avião’”, conta Silvia, rindo da lembrança.

Como gerente, Silvia montou um time de 40 mulheres vendedoras. Isso na empresa em que pouco tempo antes ela era a única mulher. E por que só mulheres? “Todo mundo pergunta isso, mas não eu tentei homens e não deu certo. No trabalho à distância, as mulheres são persistentes sem ser insistentes, têm capacidade de usar a imaginação para descrever o produto, mais paciência para explicar os detalhes que os clientes não entendem”, afirma ela.

Assim conquistou a ascensão tão almejada e a independência na criação do filho: “Consegui que meu filho estudasse em um bom colégio, comprei uma nova casa para meus pais, meu carro, meu primeiro apartamento”, conta ela, que só aos 33 anos, quando o filho já estava no pré-vestibular, decidiu ela mesma fazer um curso superior, de Administração.

“Os seis primeiros meses foram péssimos. A média de idade ali era 18, 19 anos. Eu era a ‘velha da turma’, até perceber que eu é que tinha que me adaptar”, conta. O filho também foi cursar Administração em outra universidade e os dois chegaram a ser universitários juntos. E esse universo jovem, cheio de ideias, mudou sua forma de pensar. Foi assim que, após 17 anos na mesma empresa, aceitou um convite para trabalhar em uma startup, a Cianet: “Entrei na primeira empresa quando ela ainda era uma startup e sai com ela muito grande para outra que na época também era uma startup, montada por três amigos da faculdade. Mas era um novo desafio e eu estava precisando disso”, disse ela.

De gerente à CEO

Seis meses depois da mudança, Silvia só conseguia pensar em uma coisa: “Achei que tinha tomado a pior decisão da minha vida. Não estava conseguindo entregar resultados, tudo estava indo devagar demais”, lembra ela.

Decidiu pedir demissão, mas o gestor pediu que ela ficasse mais seis meses. E tudo mudou: os seis meses já são 10 anos. Nesse tempo, estruturou a área comercial e viu a empresa se tornar uma das maiores em produtos e desenvolvimento de tecnologia para o mercado de provedores regionais de internet. E há um ano, um novo desafio: ser CEO da empresa.

“Há bastante tempo o presidente me levava para participar de painéis estratégicos, e quando ele saiu chegou a dizer: você é a pessoa para assumir o cargo, mas achei que fosse brincadeira”, afirma.

No primeiro convite, chegou a recusar. “Eu sabia que isso significava abrir mão de um cargo em que era queridinha da empresa, por entregar resultados positivos, para ser aquela que tem ‘ônus’ e ‘bônus’, mas aceitei”, conta ela. Para complementar a formação e a experiência, fez uma pós-graduação em marketing, um MBA e ainda a formação em Life e Executive Coach, para conseguir trabalhar melhor com a equipe. “Agora tenho um time generalista, mas isso fez com que desenvolvesse competência em outras áreas. No último ano eu estava CEO, hoje, depois de um ano aprendendo, posso dizer que sou CEO”, conta.

De CEO à mãe

“Ele é meu anjo da guarda, conselheiro, um ser humano totalmente diferente. Ele que me ajudou a desenvolver e todo investimento nele valeu a pena”, diz Silvia, orgulhosa do filho, que atualmente mora em Joinville, no Norte catarinense

Glaucus terminou a primeira faculdade em Administração, na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), fez outra graduação em Engenharia Sanitária e Ambiental, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e há alguns anos mora longe da mãe, embora continuem próximos de outra forma: “Eu sempre fui muito independente e valorizei isso e ele hoje, aos 29 anos, é totalmente independente também. Ao mesmo tempo, se eu disser que estou com saudade, ele é capaz de sair de Joinville à noite só pra passar um tempo comigo”, contou ela.

Foi só quando o Glaucus estava com 16 anos que ela conheceu o atual marido. “Até então eu me dediquei muito para o trabalho e fiquei muitos anos sozinha. Não estava disposta a ter mais filhos, então isso de certa forma afastava os homens. Mas aí, quando o Glaucus já estava adolescente, meu marido chegou e também já tinha dois filhos homens, e aí me tornei mãe de meninos”, conta.

Assim, 16 anos depois de ter se tornado mãe aos 16, quando já havia vivido mais tempo como mãe do que qualquer outra experiência, ‘ganhou’ mais dois filhos. “Hoje eu digo: eu e os nossos filhos. Todos somos parceiros e eu amo ser mãe de menino. Até por sempre estar nesse meio, batalhando em funções que eram mais de homens”, afirma.

Em toda essa história, Silvia conta que já errou e acertou muito, ressaltando que em todas as histórias de sucesso há inesperados e grandes decepções: “as coisas não são fáceis mesmo. Tentativas e erros já tive muitos. Mas aprendi muito, sozinha ou com as pessoas. Eu também estudo muito. Precisamos aprender rápido e fazer de novo, quantas vezes for necessário”, finaliza ela.

O que é necessário para ter sucesso?

“Determinação: ter vontade, mas também ter atitude. Isso pra tudo: pra fazer uma dieta, pra deixar de comer chocolate, mas também para a carreira. Foco, atitude e coragem. E, para nós, mulheres, acho importante não se vitimizar. A mulher pode ser mãe, esposa, pode ser o que quiser, mas não pode se vitimizar. O que importa é a competência – o mercado de trabalho foi concebido por homens e a gente entrou depois, então temos que correr atrás do prejuízo, e se capacitar ainda mais. Temos diferenças e preconceitos? Sim, mas cada vez menos. Tudo depende da forma como a gente encara”.

G1