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Mulher morre baleada e marido é preso por suspeita de feminicídio

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24/08/2017 15:52

Homem nega crime, mas para polícia ele matou esposa com tiro na cabeça na quarta-feira em Mauá pela condição de gênero. ‘Jamais trate uma mulher como lixo’, havia postado vítima no Facebook

Lanieli Santos foi vítima de feminicídio, segundo a polícia (Foto: Reprodução/Facebook)
Legenda da foto

Um homem de 26 anos de idade foi preso em flagrante na manhã de quarta-feira, 23, e acabou indiciado por feminicídio por suspeita de assassinar a mulher, de 20 anos, com um tiro na cabeça, dentro de casa, onde também mora a filha do casal, de 1 ano, em Mauá, na Grande São Paulo. É a sexta morte de mulher pelo marido ou ex-companheiro na região metropolitana e capital em uma semana, mas a primeira a ser considerada oficialmente pela polícia como vítima de feminicídio.

O calceteiro (que trabalha na pavimentação de calçadas) Marcelo da Silva Azevedo negou o crime, alegando que Laniele Santos Duques da Silva disparou contra si mesma enquanto brincava com a arma, um revólver calibre 38. A perícia, no entanto, descartou a possibilidade de morte acidental.

Para a investigação do 1º Distrito Policial (DP) de Mauá, Marcelo matou a mulher, Lanieli pela condição do gênero feminino dela. Preso pela Polícia Militar e indiciado pela Polícia Civil, ele seria levado à audiência de custódia no Fórum de Santo André.

O feminicídio é uma qualificadora do homicídio. Sancionada em 2015 por uma lei federal, que transformou em hediondo o assassinato de mulher motivado justamente por sua condição de mulher. Isso acarreta um aumento da pena, no caso de eventual condenação, que pode ser de 12 a 30 anos de prisão.

O G1 não conseguiu confirmar se Marcelo constituiu um advogado para defende-lo e nem localizou quem seria seu possível defensor para comentar o caso. A reportagem também não encontrou familiares da vítima para falar.

‘Jamais trate uma mulher como lixo’

“Jamais trate uma mulher como lixo – Porque lixo vira arte na mão de quem tem talento”, havia postado Lanieli um mês antes de morrer. A postagem, que é uma crítica àqueles que maltratam mulheres, tem a foto de uma mulher e foi compartilhada por ela no dia 16 de julho.

Segundo a ocorrência, policiais militares foram acionados pela vizinha do casal, que escutou um ‘estouro oco’ vindo de dentro da casa de Lanieli e Marcelo e depois o choro da filha deles. Ela ainda contou que o homem gritou duas vezes o nome da mulher e o viu saindo com a criança no colo pelas escadas.

A vizinha entrou na casa e viu Lanieli caída no quarto com sangue em volta. Então pediu ajuda. A morte da mulher foi confirmada no local por médicos que constaram que ela foi baleada no crânio. A Polícia Militar (PM) passou a procurar Marcelo, que foi encontrado em um bar, depois de ter deixado a bebê com a mãe dele.

Ao ser abordado, o marido disse que a mulher manuseava um revólver e disparou contra a própria cabeça. Alegou ainda que não a socorreu porque ela já estava morta. Peritos, porém, descartaram essa versão porque o ferimento em Lanieli foi do lado esquerdo e ela é destra. Além disso, a trajetória da bala indica que alguém mais alto atirou de cima para baixo.

Marcelo não informou aos PMs onde a arma estava. Em cima da cama do casal estavam duas munições de calibre 38 que foram apreendidas, enquanto ele foi detido e levado à delegacia por suspeita de assassinato.

Seis mulheres mortas

Lanielli é a sexta mulher morta pelo marido ou ex-companheiro na Grande São Paulo e capital em uma semana, mas a primeira a ser considerada oficialmente vítima de feminicídio pela polícia no registro inicial do crime feito no boletim de ocorrência (a tipificação pode mudar no decorrer da investigação ou na denúncia feita pelo Ministério Público (MP)).

Apesar de Marcelo ter sido indiciado, ou seja, responsabilizado criminalmente para responder por feminicídio por “menosprezo ou discriminação à condição de mulher”, a qualificadora não é usada pela polícia em todos os casos.

Em relação às cinco mulheres assassinadas anteriormente entre os dias 16 a 21 de agosto, somente em uma situação o agressor poderá vir a ser enquadrado por feminicídio. Isso porque o registro das mortes de mulheres como feminicídio no boletim de ocorrência depende do entendimento da autoridade policial sobre quais são as circunstâncias e motivações de cada um dos crimes.

PM mata ex

Incialmente indiciado na última segunda-feira, 21, no 8º DP, Brás, no centro de São Paulo, por homicídio simples e violência doméstica, o cabo da PM, Maurício de Oliveira Gama, de 47, talvez possa ser responsabilizado por feminicídio ao final da conclusão do inquérito. Ele confessou ter matado a ex-mulher, Celina moura Mascarenhas Gama, de 35, com dois tiros na cabeça. Alegou que ela tentou agredi-lo e em seguida atirou.

Assim como as mortes de Lanielli e Celina, as das outras quatro mulheres assassinadas aconteceram dentro da residência, o que demonstra que seus algozes usam de covardia para cometer à violência contra elas. Trata-se de um homicídio onde dentro das relações afetivas entre agressores e vítimas.

Geralmente há emprego da força física masculina contra a feminina.

Homem esgana namorada

Isso ocorreu também no último dia 21 deste mês, quando Jailson Ferreira de Souza, 20, esganou e matou a namorada Siria Silva Souza, 18, após uma discussão no barraco onde moravam no Jardim Angela, Zona Sul da capital. Apesar de, em tese, poder ser indiciado por feminicídio, o caso foi registrado no 47º DP, Capão Redondo, como ‘violência doméstica’ e ‘homicídio simples’.

Segundo policiais ouvidos pelo G1, Jailson não matou Siria pelo fato de ela ser mulher, mas porque houve desentendimento entre o casal. Ele foi preso.

Idoso bate e mata mulher

O mesmo entendimento tiveram os policiais do 45º DP, Vila Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, que prenderam e indiciaram o ajudante de serviços gerais Antônio de Souza, 62, por homicídio qualificado por motivo fútil por matar a mulher, Maria do Carmo Cândido, de 67, na segunda-feira passada. Os agentes disseram à reportagem que não havia indícios de feminicídio quando ele agrediu ela e a matou.

Delegado mata mulher juíza

Em 20 de agosto, o delegado Cristian Lanfredi, 42, matou a tiros sua mulher, a juíza Cláudia Zerati, 46, e depois se matou onde morava com ela, em Perdizes, Zona Oeste de São Paulo. O crime foi considerado homicídio qualificado por motivo fútil, seguido de suicídio.

Rapaz esgrangula ex

Quatro dias antes desse crime, no último dia 16, André Luís Martins Santos, 22, estrangulou Mizaelly Mirelly da Silva, 22, e depois de matar a ex-namorada, assassinou o filho de 7 meses que teve com ela. O motivo do crime seria ciúmes. Ele foi cometido na casa da vítima no Jaguaré, Zona Oeste de São Paulo. O caso foi registrado inicialmente como homicídio qualificado por motivo fútil. Segundo policiais ouvidos pela reportagem, se houver indícios de feminicídio, a natureza do crime será alterada.

O Brasil registra oito casos de feminicídio por dia no Brasil, segundo o Ministério Público.

G1/Fronteira Online