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Navio misterioso que ‘surgiu’ em praia vira alvo de pesquisadores estrangeiros

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31/08/2017 14:27

Veleiro inglês Kestrel, que encalhou em Santos, no litoral paulista, em 1895, é a 'hipótese mais provável'. Vapor Glória já foi descartado

Destroços estão localizados nas proximidades do Canal 5, em Santos, SP (Foto: José Claudio Pimentel/G1)
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Arqueólogos e historiadores de Portugal foram acionados para auxiliarem nas investigações que tentam descobrir a qual embarcação pertencem os destroços localizados em Santos, no litoral de São Paulo. Um veleiro com três mastros, encalhado em 1895, foi apontado nesta terça-feira, 29, como a “hipótese mais provável”.

Há uma semana, a maré baixa e a erosão da Praia do Embaré provocaram o aparecimento de pedaços de madeira e metal que se assemelham a um casco de navio, próximo à mureta do Canal 5. Segundo a prefeitura, os destroços têm pouco mais de 50 metros de comprimento e 12 metros de largura, aproximadamente.

“Desde a localização, estamos monitorando toda a estrutura e realizando medições. Fizemos imagens e enviamos a especialistas em embarcações de madeira, em Portugal. Eles estão analisando tudo e colaborando com a nossa investigação”, explica o arquerólogo Manoel Gonzalez, que lidera uma equipe de seis profissionais em Santos.

Segundo ele, o trabalho do grupo, composto também por historiadores e arquitetos, é tentar fazer um “recorte histórico”. Isto é, determinar, a partir do material encontrado, quando a embarcação foi fabricada e por quanto tempo esse modelo de barco foi utilizado. “O que afirmamos, hoje, é que tem mais de 100 anos”, garante.

A estrutura parcialmente revelada na areia é praticamente toda composta de madeira. “Vemos ali o fundo da embarcação, que ficou aterrado com o tempo e nunca foi retirado dali. As peças são unidas por longas estacas de metal, que funcionam como juntas. Isso já nos oferece uma pista”, explicou o arqueólogo.

Uma análise mais profunda do material depende de uma autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), para a retirada de amostras. O órgão informou ao G1 que aguarda da Marinha do Brasil uma notificação que ateste que os destroços encontrados apresentam um “valor cultural”.

A Capitania dos Portos de São Paulo (CPSP) informou que não está sob a jurisdição do órgão qualquer avaliação da estrutura encontrada, justamente por não ser atual. Segundo a Marinha, a responsabilidade é da Prefeitura de Santos que, por sua vez, afirmou também aguardar parecer oficial da autoridade marítima.

Hipóteses

Enquanto as autoridades decidem a responsabilidade sobre a descoberta, nesta terça-feira, Gonzalez afirmou que o grupo encontrou informações do encalhe do veleiro Kestrel, ocorrido em 11 de fevereiro de 1895 na mesma região onde o barco foi encontrado. “É a hipótese mais provável, mas não por isso deixamos de apurar e investigar. O trabalho continua até termos certeza”.

De acordo com uma publicação da época, o encalhe do Krestel ocorreu pela ausência de um capitão a bordo. Uma ventania levou a embarcação à praia e um rebocador que navegava pela barra da cidade ainda tentou fazer o resgate, sem sucesso. “Era um veleiro de três mastros, que se assemelha aos destroços localizados”.

Apesar da suspeita, entre as possibilidades permanecem as embarcações Elitel Fritz e Madonna Della Costa, ambas encalhadas ou naufragadas em 1894, e o vapor Nanny, que sinistrou em 1890. O vapor Gloria, que se acidentou em 1909, antes apontado como uma possibilidade, já foi descartado pelos profissionais.

“O Gloria encalhou mais à frente, mais na região da Ponta da Praia, mas logo foi desencalhado com o auxílio de um rebocador. A embarcação voltou a navegar”, afirma Gonzalez, que também encontrou publicações de jornais da época. O acidente do navio a vapor ocorreu durante um intenso nevoeiro no Estuário santista.

Descoberta

Funcionários da limpeza urbana se depararam com a estrutura parcialmente enterrada na areia durante a limpeza das praias, no início da manhã. Equipes da prefeitura foram deslocadas ao local e constataram aquilo que parecia ser parte do casco de uma embarcação de madeira. A área foi isolada, por segurança.

“Esse navio estava enterrado ali há muito tempo e, com o rebaixamento da areia, acabou ‘aflorando’. Pela mureta do canal, por onde passa parte da estrutura desse barco, dá para ver que mais de 1,5 metro de areia foi rebaixada nessa área”, explicou a subprefeita da região da orla, Fabiana Ramos Garcia Pires.

Para o prático em atividade mais antigo do Brasil, Fabio Mello Fontes, trata-se de uma embarcação construída antes de 1930. “Ferro e madeira não foram mais usados depois desse período, por isso, deve ter mais de 100 anos. Certamente é uma embarcação muito antiga, que ainda requer investigação minuciosa”, disse.

 G1