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Piloto de avião interceptado com mais de 600 kg de cocaína diz que está arrependido durante audiência, em Goiânia

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28/06/2017 14:57

Juiz determinou que condutor da aeronave e passageiro sigam presos. Polícia afirma que avião saiu de Cuiabá, foi à Bolívia e tinha como destino fazenda em Jussara, no noroeste de Goiás, onde foi interceptado

Piloto de avião interceptado com cocaína passa por audiência de custódia (Foto: Vitor Santana/ G1)
Legenda da foto

Piloto do avião interceptado com 662 kg de cocaína, Apoena Índio do Brasil Siqueira Rocha disse nesta quarta-feira ,28, que está arrependido de transportar a carga. A declaração foi feita durante audiência de custódia realizada na sede da Justiça Federal, em Goiânia. A sessão determinou que o condutor e o passageiro da aeronave sigam presos.

“Estou arrependido. Fiz isso porque estava precisando de dinheiro. Estava desempregado, perdi meu carro, apartamento em briga judicial, contas atrasadas. Achei que essa seria uma chance de desafogar as contas”, declarou ao juiz.

O juiz Manoel Pedro Martins de Castro Filho presidiu a sessão, que começou por volta das 11h30 e terminou ao meio dia. O advogado da dupla, Emerson Vita, pediu a aplicação de medidas cautelares alternativas. A solicitação foi negada pelo magistrado, que concluiu ser necessário manter a prisão preventiva da dupla.

“Nosso embasamento para manter a prisao preventiva foi a grande quantidade de entorpecente e o desrespeito a uma ordem de aterrissar no aeroporto mais próximo, caracterizando a periculosidade”, explicou o juiz ao G1.

Durante a sessão, o outro passageiro do avião, Fabiano Júnior da Silva Tomé, afirmou que trabalha como mêcanico de avião e reforçou o que havia dito em depoimento à Polícia Federal, que era o dono da aeronave abatida.

Para a PF, Fabiano Júnior ainda alegou que teria comprado a avião por R$ 500 mil no último dia 26 de maio, tendo pago metade do valor em espécie. Ainda segundo relato do preso, ele receberia R$ 40 mil para fazer o transporte da cocaína.

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) informou ao G1, por meio de nota, que a aeronave está registrada no nome de Jeison Moreira Souza. O órgão relatou ainda que o piloto preso pela PF “possuía licença, estava com a habilitação válida e o Certificado Médico Aeronáutico (CMA) em dia”. Já o segundo preso não tem registro como piloto.

Fabiano também disse que está arrependido e aceitou o serviço porque está desempregado e precisa sustentar a família. Ele também alegou que mentiu em alguns pontos.

“Eu disse tudo espontaneamente, mas algumas coisas foram mentiras, como o destino da droga. Era pra ser entregue perto de Barra do Garças, mas a localização estava errada, a gente não achou, ficamos dando voltas e fomos interceptados”, relatou.

Depois da audiência de custódia, Apoena e Fabiano foram levados para o Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital. Agora, a defesa espera a conclusão do inquérito policial para tomar novas medidas.

“Vamos aguardar a conclusão das investigaçõeses e depois pedir a revogação da prisão”, disse o advogado ao G1.

Percurso

Após analisar o GPS do avião interceptado, a Polícia Federal informou à TV Anhanguera que a aeronave saiu de Cuiabá às 4h de domingo (25) e chegou à Bolívia às 6h40. Ainda segundo a corporação, o avião decolou uma hora depois com destino a Jussara, no noroeste goiano, onde foi interceptado pela FAB.

Em depoimento à PF, o piloto da aeronave informou que receberia R$ 90 mil pelo transporte da droga. O detido disse ainda que relatou plano de voo falso à FAB, informando que estava fazendo um treinamento saindo de Cuiabá para a Fazenda Tucunaré. O condutor também admitiu à corporação que mentiu sobre plano de voo da volta ao Brasil, ao dizer que saiu da Fazenda Itamarati Norte, arrendada pela Amaggi, empresa da família do ministro da Agricultura Blairo Maggi, no Mato Grosso.

Inicialmente, a FAB afirmou que o piloto da aeronave disse ter decolado da fazenda Itamarati Norte. No entanto, após serem presos, o piloto e o passageram admitiram que não passaram pela propriedade.

Procurada novamente pelo G1 após as declarações do delegado da PF, a FAB informou que seu posicionamento permanece o mesmo que foi publicado em seu site na tarde de segunda-feira. A nota informa que “a confirmação do local exato da decolagem fará parte da investigação conduzida pela autoridade policial”.

“A nossa detecção radar em toda a região do país, ela não consegue detectar aeronave no solo. Por isso que se faz uma interrogação do piloto. Se ele estiver utilizando o espaço aéreo brasileiro de acordo com as regras estabelecidas, logicamente que nós vamos saber que ele decolou de algum aeródromo”, disse o tenente Brigadeiro Gerson Machado, do comando de operações aeroespaciais da FAB.

O G1 solicitou posicionamento do ministério da Agricultura, mas não recebeu retorno até a publicação desta reportagem.

No entanto, por meio de seu perfil em uma rede social, o ministro Blairo Maggi já havia dito que “está acompanhando as investigações da FAB sobre o local de decolagem da aeronave”. Ele disse que quando houver uma confirmação, ele informará. O ministro comentou ainda que a “fazenda é extensa e vulnerável à ação do tráfico internacional”.

Já a Amaggi disse por meio de nota que “não tem qualquer ligação com a aeronave descrita pela FAB e não emitiu autorização para pouso/decolagem da mesma em qualquer uma de suas pistas”.

Interceptação e investigação

A aeronave, matrícula PT-IIJ, foi interceptada no domingo ,25, na zona rural de Jussara, que fica a cerca de 225 km de Goiânia, no noroeste do estado. Os ocupantes fugiram do local, mas a droga foi apreendida pela Polícia Militar e levada para a sede da PF em Goiânia.

O piloto e o mecânico foram detidos pela PF na noite de segunda-feira ,26,. Eles foram presos em um hotel a cerca de 30 km do local onde a aeronave pousou.

O delegado da PF responsável pelo caso, Bruno Gama, informou que a corporação deve investigar o destino da cocaína apreendida.

“Vai ser apurado agora desde a propriedade da aeronave, quem seria o real proprietário dessa droga e qual seria o destino final da droga, pois há fardos indicando que podem ser outros estados ou até mesmo para o exterior. [Carregamento vale] aproximadamente R$ 20 milhões no território nacional. Quando a droga vai para fora o valor vai duplicar ou triplicar”, afirmou o delegado.

Perseguição e apreensão

Ainda segundo o delegado, a Polícia Federal havia repassado informações sobre o carregamento de cocaína à FAB, que enviou um avião para fazer o acompanhamento da aeronave. A Força Aérea ordenou que o bimotor mudasse a rota e pousasse no Aeródromo de Aragarças, em Goiás. Inicialmente, o piloto obedeceu às ordens, mas ao invés de pousar, desviou o curso.

Com isso, o avião da FAB “executou um tiro de aviso” para fazer a aeronave cumprir as ordens. O órgão esclareceu que o disparo não atingiu nenhuma parte do bimotor. A aeronave então pousou na zona rural de Jussara. Na aterrissagem, a asa da aeronave e a cauda ficaram danificadas.

O tenente-coronel da Polícia Militar Ricardo Mendes informou que a corporação foi acionada logo no início da interceptação. “O Graer [Grupo de Radiopatrulha Aérea da PM] foi chamado pelo fato da aeronave já estar em espaço aéreo de Goiás e pela mobilidade do helicóptero da polícia de conseguir pousar em locais mais difíceis, coisa que o avião da FAB não conseguiria”, explicou Mendes.

O policial afirmou ainda que a cocaína encontrada era pura. “Ainda poderia ser misturada, e a quantidade, multiplicada. Essa foi a maior apreensão de cocaína da história por parte da PM em Goiás”, disse.

Um vídeo feito pela Polícia Militar mostra o momento em que policiais se aproximam da aeronave, instantes após a interceptação feita pela FAB. As imagens também registram quando o Graer sobrevoa a área em que o avião pousou. Em seguida, os policiais pousam no local e fazem a apreensão da droga.

G1/Fronteira Online