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Testemunha diz que Rota ficou mais de uma hora em barraco com jovem morto na Favela do Moinho

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29/06/2017 17:22

Dona de barraco diz que foi impedida por policiais de acessar sua casa. Corpo de Leandro de Souza Santos, de 18 anos, foi enterrado nesta quinta-feira

Martelo encontrado no local onde morreu Leandro de Souza Santos, 18 anos, na Favela do Moinho (Foto: Rogério de Santis/Futura Press/Estadão Conteúdo)
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Uma testemunha ouvida pela Polícia Civil disse que os agentes das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) que mataram Leandro de Souza Santos, de 18 anos, durante uma operação na favela do Moinho, na última terça-feira ,27, ficaram a sós com o rapaz por mais de uma hora dentro de um dos barracos da comunidade. O corpo de Leandro foi enterrado nesta quinta-feira ,29, no Cemitério da Vila Formosa, na Zona Leste de São Paulo.

A testemunha é dona do barraco em questão. De acordo com ela, que pediu para não ter o nome revelado, os policiais entraram no local atrás de Leandro e só saíram de lá depois de “quase uma hora e meia”, com o suspeito desacordado. Ele foi retirado em uma maca e levado até a Santa Casa, mas, segundo o hospital, já estava morto quando chegou.

Ao G1, a testemunha revelou que estava em frente, mas fora de casa no momento em que Leandro e os policiais que o perseguiam entraram correndo. “Foi coisa de segundo, só senti o vento”. Ela e o marido notaram a invasão, mas foram impedidos de verificar o que acontecia no próprio barraco.

A mulher contou que tentou ao menos duas vezes acessar o local, mas não conseguiu convencer os agentes que guardavam a entrada. “Já tinham entrado cinco policiais lá para dentro e eles não deixaram eu entrar”.

Sem sucesso, a testemunha disse que aguardou do lado de fora. Enquanto esperava, relatou que uma atitude dos policiais lhe chamou a atenção: “Aumentaram o volume do som”. Com a música alta e o barulho do helicóptero que sobrevoava a área durante a operação, ela diz que passou a “não ouvir nada” do que ocorria dentro do barraco.

De acordo com a mulher, quando enfim os policiais saíram, não falaram nada. Segundo ela, só depois que o corpo de Leandro foi retirado é que pôde retornar a casa. “Olhei o chão e tava cheio de sangue. Espirrado no fogão, na geladeira, até no armário que tava meio afastado.”

Logo que entrou no barraco, a testemunha disse que foi convocada pelos policiais da Rota para acompanhá-los até a delegacia, onde prestaria depoimento sobre o caso. “Eu não queria ir sozinha, mas eles falaram que tinha que ser sozinha. Nem minha irmã deixaram eu levar”.

A testemunha revela, então, que foi posicionada no banco de trás de uma viatura, entre dois policiais, e seguiu em direção ao distrito policial. Ou aos distritos policiais, já que, segundo ela, o carro passou primeiro no 77º DP, na Santa Cecília, e depois no 23º, em Perdizes, antes de chegar ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), onde o depoimento foi prestado.

Durante o caminho e as paradas até a sede do DHPP, a mulher diz que foi interpelada diversas vezes sobre o que tinha visto ou ouvido acontecer no barraco. Ela conta que se sentiu pressionada pelos agentes. “Se eu tivesse dito que ouvi tiro ou o menino gemendo, essas coisas, acho que eles tinham acabado comigo por ali mesmo. Foi o que eu imaginei ali na hora que eu tava sozinha. Estava só eu e tinha quatro [policiais]”.

O depoimento à Polícia Civil levou mais de uma hora, estima a testemunha. Depois, ela afirma que ainda foi levada ao batalhão da Rota, na Avenida Tiradentes, onde teve de contar a história novamente, em mais um depoimento oficial. Em nenhum dos interrogatórios disse ter mencionado a suposta coerção praticada pelos policiais militares.

O G1 entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP) para falar a respeito do que disse a testemunha e aguarda retorno.

Na quarta-feira ,28, em nota enviada pela Secretaria da Segurança Pública (SSP), a Polícia Militar informa que “todos os fatos que ocorreram na operação realizada pela Rota” estão sendo “investigados em Inquérito Policial Militar”. “O DHPP também instaurou IP [inquérito policial] e vai investigar a morte que ocorreu durante a intervenção dos policiais militares.”

Os PMs disseram que Leandro se recusou a ser abordado e fugiu para “uma habitação, tirando os moradores que lá estavam e passando a atirar contra os policiais, que reagiram”. A nota diz, ainda, que “duas pessoas foram presas na operação. Uma delas foi flagrada com uma motocicleta furtada e a outra com entorpecentes e um celular roubado”.

G1/Fronteira Online