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Brasil e OMS investigam risco de terapia anti-HIV em gestantes

Notícias, Saúde
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21/05/2018 15:45

OMS fez alerta de uma possível relação entre o antirretroviral dolutegravir e um defeito em tubo neural de fetos observado na África. Anvisa abriu investigação no Brasil

Dolutegravir está sob investigação para uso em gestantes. Não há informações suficientes nesse momento, diz OMS (Foto: Divulgação)
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A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e a Organização Mundial de Saúde investigam uma possível associação entre o uso do antirretroviral dolutegravir (medicamento usado para o controle do HIV) na gravidez e um defeito no tubo neural em fetos. O tubo neural é a estrutura que dará origem à medula espinhal e ao cérebro. A associação foi identificada em um estudo independente feito em Botswuana, na África.

Normalmente, a má-formação nessa estrutura ocorre em 0,1% dos nascidos vivos; o que o estudo identificou foi um aumento para 0,9% da prevalência da anomalia. As entidades enfatizam, contudo, que até esse momento a relação é apenas uma observação — sem nenhuma relação de causa e efeito.

O que o estudo está tentando identificar nesse momento é o porquê do aumento nas anomalias ter sido identificado. A primeira suspeita recai sobre o medicamento pelo fato do crescimento ter sido identificado entre mulheres que utilizavam o antirretroviral. Outras causas precisam ser investigadas e não há uma explicação fisiológica nesse momento que relacione os fatos, explica a OMS. A pesquisa foi financiada pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH).

“Foram identificados mais três casos em vez de um só”, explica Ésper Kallás, infectologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

“O impacto dessa informação [que ainda está sendo investigada] é que o dolutegravir hoje é o medicamento de primeira linha da OMS. Ele é a primeira opção para o tratamento “, continua.

O estudo seguia 426 mulheres que tomavam o medicamento para evitar a transmissão do HIV ao feto do durante a gravidez. Quando foi observado o aumento, o estudo alertou a Organização Mundial de Saúde. O monitoramento deve continuar até fevereiro de 2019, segundo a entidade. “Os dados vão oferecer mais informação sobre a segurança do DTG [dolutegravir] para mulheres em idade fértil”., disse a nota da OMS.

No Brasil, também foi aberta uma investigação e médicos consideram cautela nesse momento.

“O alerta é importante, mas devemos aguardar para estabelecer uma relação de causa e efeito”, diz Jamal Suleiman, infectologista do hospital Emílio Ribas, referência em tratamento do HIV em São Paulo.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) emitiu um alerta sobre o caso e diz que há uma investigação aberta no Brasil conduzida pela Gerência de Farmacovigilância da entidade.

O infectologista Esper Kallás diz que não conhece dados sobre o uso em gestantes no Brasil. De qualquer modo, ele explica que o medicamento só é utilizado há um ano no país.

Recomendações

Diretrizes da OMS de 2016 alertaram que havia dados insuficientes para o uso do dolutegravir durante a gravidez e amamentação e recomendaram outros medicamentos para o controle da HIV: efavirenz em combinação com tenofovir, lamivudina ou emtricitabina.

“A OMS está levando muito a sério essa potencial questão de segurança e está trabalhando de perto com todas as partes interessadas relevantes, incluindo os ministérios da saúde, os investigadores do estudo, o fabricante e as organizações parceiras para investigar essas descobertas preliminares”, disse a entidade.

A OMS recomenda que mulheres que estão utilizando o medicamento conversem com o médico. Não é recomendável a interrupção sem essa conversa, segundo nota de alerta. A entidade diz ainda que o efavirenz (outro antirretroviral) deve ser utilizado como primeira opção no caso de mulheres que vão começar a terapia.

A nota da OMS também recomenda a adoção de suplementação com ácido fólico para evitar a ocorrência da má-formação.

“Até que os dados sejam esclarecidos, a recomendação é de não usar o medicamento no primeiro trimestre da gestação”, diz Kallás.

G1