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Conheça o brasileiro que vende cupons de rodízio para bancar sonho de ser piloto

Esportes
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06/12/2017 10:41

Desde os oito anos, Bruno Carneiro utiliza de meio inusitado para arrecadar fundos e se manter no automobilismo. Campeão de F4 na China, piloto se aventura agora na F3 Japonesa

Em 2017, Carneiro fará sua segunda temporada na F3 Japonesa (Foto: Divulgação)
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“O jeitinho brasileiro”. Essa é uma expressão usada para definir a maneira como parte da população do Brasil consegue superar as adversidades diárias, usando de recursos criativos e originais. Por muitas vezes, o tal do “jeitinho” extrapola regras sociais e entra no âmbito da ilegalidade. Para o piloto brasileiro Bruno Carneiro, no entanto, a expressão representa a maneira pela qual ele trava uma batalha diária, tentando seguir o sonho de se tornar piloto profissional.

Nascido na cidade de São Paulo, porém, criado em Herriman, no estado americano de Utah, Bruno foi campeão da Fórmula 4 Chinesa em 2016 – e da Fórmula Car Challenge presented by Goodyear – agora compete na F3 Japonesa, onde fará sua segunda temporada no ano que vem. Entretanto, para sentar no cockpit e acelerar um carro de corrida, o piloto de apenas 18 anos de idade teve que ralar, e muito.

Para conseguir realizar o sonho de se tornar piloto profissional, o paulistano recorreu a uma improvável maneira de arrecadar fundos. Desde os oito anos de idade, Carneiro vende cupons de rodízio de uma churrascaria em troca de dinheiro para financiar suas aventuras nas pistas pelo mundo afora. O piloto vai de porta em porta, cinco dias por semana, três horas por dia, na tentativa de vender os cupons de jantar.

– A ideia foi do fundador e presidente da Rodizio Grill, o Ivan Utrera. Ao invés de me dar dinheiro para correr, ele me dá cupons da churrascaria. Cada um deles vale 25 dólares (aproximadamente 80 reais), e o que eu vendesse ficaria 100% comigo. Comecei a fazer isso aos 8 anos de idade. Vou em média a 400 casas por semana, cinco dias por semana, debaixo de chuva ou sol. Desta forma, paguei por todas as minhas inscrições em campeonatos, pneus, gasolina, passagens aéreas e etc. Assim competi em vários torneios e aprendi quanto custa cada peça de um kart ou de um carro de corrida.

Mesmo sem a família ter condições financeiras para bancar o sonho de Bruno, os parentes nunca deixaram de ajudar e incentivar o rapaz em sua luta. No princípio, quando começou a vender cupons, ele contava com o apoio logístico do pai para rodar a vizinhança, porque sequer tinha idade para dirigir. Mas ao completar 16 anos, tirou a carteira de motorista e passou a fazer a peregrinação sozinho.

– O lance de venda de cupons ainda acontece todas as noites, não quando estou no Japão, mas quando estou nos EUA, na casa dos meus pais. Antes, quem me levava para vender os cupons era meu pai – meu maior motivador. Ele me levava para uma vizinhança e estacionava. Eu descia do carro e fazia uma rua, depois a outra. Aí ele me seguia de longe para proteger. Várias vezes, tinham pessoas que batiam no vidro do carro para saber o que ele estava fazendo parado ali. Quando completei 16 anos, tirei minha carteira de motorista e passei a ir sozinho. Agora, paro o carro em uma rua, faço o quarteirão andando, pego o carro e vou para o próximo. Minha mãe é cabeleireira, e também me ajuda tentando vender meus cupons para as clientes dela.

Apesar dos momentos difíceis, Carneiro também coleciona boas histórias das suas jornadas nas vendas dos cupons. Bater na porta de um desconhecido é nunca saber quem virá por trás, e Bruno sabe disso. Certa vez, mesmo ainda muito pequeno, ele foi surpreendido com u

– Teve uma vez, bati na porta de uma casa e um cara bem magrinho abriu um pouco da porta, segurando um cachorrinho Chiuaua no colo. Aí fiz um meu discurso: “Oi, meu nome é Bruno, eu sou piloto de corridas e estou vendendo estes cupons para levantar dinheiro…”. Eu tinha uns 14 anos de idade. Daí ele foi abrindo a porta, e a mulher dele, vestindo uma camisola, estava segurando uma espingarda com uma cara muito feia! Acho que nunca corri tão rápido na minha vida! Tenho várias histórias bizarras.

Mas a persistência do jovem brasileiro tem sido recompensada. Além de conseguir financiar suas temporadas no automobilismo através da venda dos certificados da churrascaria, sua dedicação chamou a atenção de algumas empresas nos EUA. O piloto acabou contratado para dar palestras, onde fala sobre sua experiência em vendas.

Bruno também recebe algum dinheiro por aulas de kart que dá para adultos e crianças. Ele usa quatro karts comprados por ele mesmo – e não cobra dos que não tem condições de pagar. Para quem já acha muito fazer isso tudo e ainda focar no trabalho nas pistas, o garoto ainda faz mais: ataca de “Gaúcho” nos finais de semana em que não está no Japão.

– Na verdade, quando estou em Utah, trabalho em uma das churrascarias que ficam na pista da Utah Motorsports Campus, onde corri por muitos anos. Trabalho nas sextas-feiras e sábados como “Gaúcho”, ou passador de carne. É bem legal, pois um monte de gente vai comer lá para ser servido pelo “piloto de F3”.

Competindo em uma categoria de monopostos em Utah, ele conheceu um empresário chinês que – impressionado pela dedicação do garoto de tentar vender os cupons, de macacão, e debaixo de sol forte – o convidou para competir no campeonato de F4 na China. Lá, Bruno conquistou o título de 2016, para depois migrar a outro país asiático: o Japão.

– A pista onde eu corria em Utah foi vendida para um grupo da China, em novembro de 2015, o Geely Automotive, que é dono da Volvo e Lotus. O presidente da companhia veio visitar a pista em um dia em que estamos tendo uma das etapas do Pirelli World Challenge (PWC). Me aproximei deste senhor, sem saber quem ele era, ofereci os cupons e ele disse que não iria comprar, pois estava voltando para a China no mesmo dia. Mas me perguntou se eu era piloto de carros e quantos anos tinha. Quando disse que tinha 16 anos e pilotava Fórmula Mazda, ele falou: “Então você vai correr de F4 na China, representando a pista que estamos comprando aqui. O seu esforço para correr de carros é incrível, observei você o dia todo andando de macacão neste calor, vendendo estes cupons. Comece a preparar seu visto. Te vejo em Zhuhai para a primeira etapa”.

Bem longe do país de origem, Carneiro não se abalou com a distância da família e faturou o título da F4 Chinesa. A conquista, porém, proporcionou uma oportunidade inesperada para o piloto brasileiro: dividir o palco de premiação dos campeonatos da FIA com Lewis Hamilton, outros pilotos da Fórmula 1, além de garantir uma vaga na F3 Japonesa.

– Conheci o Lewis também no FIA Gala. Ele foi super legal. Perguntou o que eu tinha vencido em 2016, qual era meu plano para o futuro, etc. Quando eu estava em Suzuka, neste ano, no GP da Fórmula 1, chamei por ele, eque me viu, parou e falou: “Ei cara, tudo bem? Nossa, que coisa! A gente se encontrar de novo do outro lado do mundo”. Conversamos um pouco, bem rápido, pois ele estava indo para parte de trás dos boxes, mas foi super legal. Depois me viu em um restaurante naquela noite e falou: “Hey Bruno”.

Já no Japão, Bruno teve a oportunidade de colher os frutos plantados por Ayrton Senna (de quem ele e seu pai são fãs). O brasileiro tricampeão da Fórmula 1 tem uma verdadeira legião de fãs no país nipônico, fruto de sua personalidade, perfeccionismo, além do fato de ter conquistados os três títulos Mundiais com os motores Honda, motivo de orgulho para o país.

– Meu pai é fanático pelo Ayrton, e eu também. Ele invadiu a pista no GP do Brasil de 1993. Então, desde pequeno, eu assisti quase tudo que existe sobre o Senna. Recebo muitos presentes nas corridas, e sempre tem alguma ligação com o Ayrton. Desenhos, pinturas, camisetas fotos que tiraram com ele. É emocionante. Eles amam o Bruno Senna também! Onde quer que eu vá, sempre vai ter alguma coisa sobre o Ayrton.

Como nem tudo na vida de um piloto são flores, o brasileiro viveu na pele a sensação de solidão em um país “estranho”. Sem

– De junho até outubro (de 2017) vivi sozinho em um pequeno apartamento na cidade de Niigata, onde fica a sede do time em que corro. Morava em um grupo de apartamentos, junto com os mecânicos da equipe. Com o fim da temporada, a depressão e solidão foram aumentando e mudei para Osaka, perto de onde mora a minha namorada.

Além do isolamento em um país tão distante, Bruno segue vivendo “na ponta da faca” com relação ao dinheiro. No competitivo campeonato da F3 Japonesa, ele sabe que caso bata o carro, talvez não consiga estar no grid na etapa seguinte.

– Prejudica demais. Não tem um dia que passe sem que eu lembre que tenho que tentar ligar para uma pessoa, mandar e-mail para outra, visitar uma empresa aqui ou ali. Este ano, por exemplo, tivemos alguns incidentes. Nada muito grande, mas perdemos uma asa dianteira e duas suspensões. Só que nosso orçamento era muito apertado, e cada vez que sentava no carro eu sabia tinha que atacar, ser agressivo, dirigir além do limite da máquina, mas sempre sabendo que se batesse, talvez não pudesse correr no final de semana seguinte. Mas como diz meu pai: “Se fosse fácil não seria difícil, e aí todo mundo faria”.

Só que foi do outro lado do mundo, e em um momento de adaptação, que Carneiro conheceu os seus “anjos da guarda”. Um deles é o piloto brasileiro João Paulo Oliveira, campeão brasileiro, alemão e japonês de F3, campeão da Super Fórmula, em 2010, e atualmente no Super GT500 pela Nissan. O outro é o atleta olímpico, Renato Mizoguchi, que reside no Japão e ajuda Bruno na conversa com os mecânicos.

– O JP Oliveira basicamente salvou minha temporada! A equipe comprou um super carro pronto para vencer corridas. Mas como a equipe era estreante, e o Dallara 315 é um carro complexo, com muita aerodinâmica, ajustes de suspensão e etc, sofremos muito. Aí eu pedi ao JP para dar uma força na penultima etapa da temporada em Autopolis e ele ajudou a equipe demais. Uma coisa a mais, o JP é ídolo total no Japão. Andar com ele no paddock, mesmo indo dos boxes para ir comer, é quase impossível pois todo mundo pede autografo. E ele é o cara mais legal com os fãs.

Sobre o futuro, Bruno ainda não sabe exatamente para que categoria quer ir, mas sabe de uma coisa, quer continuar no automobilismo, independentemente de onde for.

– Corro porque amo! É minha vida, não sei se minha vida teria sentido sem automobilismo. Sempre falei…”Se tiver 4 rodas e um volante, eu quero dirigir”. F1 é o sonho como a maioria dos pilotos, mas os custos fazem que as coisas sejam um pouco distantes. Mas olhando para trás na minha carreira, nada parece impossível. Meu objetivo hoje é competir mais um ano na F3 Japonesa, competir em Macau em 2018 e se tudo der certo e patrocínios acontecerem, passar para a SuperFórmula Japonesa em 2019. Aí quem sabe F1, ou continuar no Japão.

Foi em Macau, inclusive, que, em 2016, o brasileiro conheceu o compatriota que hoje é o brasileiro mais perto da Fórmula 1, o mineiro Sergio Sette Câmara, que disputou a Copa do Mundo no país asiático nos últimos três anos, por pouco não vencendo a edição de 2017.

– A última etapa da F4 na China, em 2016, foi na pista de Zhuhai. Zhuhai faz fronteira com Macau. Aí o meu maior rival na F4, o Canadense Maxx Ebenal me disse: “Cara, a última corrida da F4 é uma semana antes do GP de Macau. Porque você não fica e assiste ou vai visitar alguns times. Afinal você é acabou de ganhar o campeonato e isso vai te ajudar.” Uma das coisas mais legais foi conhecer o Sergio Sette Camara, que na minha opinião é um cara de incrível talento. Quase chorei quando ele bateu na última curva este ano. Mas ele deu show o final de semana inteiro. Macau se tornou meu sonho e obsessão, mas este ano nem eu nem a equipe tínhamos dinheiro para participar. Mas quem sabe em 2018!

GE