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Do “quase adeus”, à Seleção: a ascensão meteórica de Arthur no Grêmio em 9 meses

Esportes, Nacional
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16/09/2017 09:31

Surpresa da lista de Tite para os jogos contra Bolívia e Chile, volante gremista resgata o crescimento pessoal que o alavancou de opção remota a peça-chave do Grêmio de Renato Portaluppi

Arthur, em ação no jogo contra o Botafogo, que encantou de vez Tite (Foto: Lucas Uebel / Grêmio, DVG)
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Tite anuncia o nome de Arthur como uma das grandes novidades da lista de convocados da Seleção para os jogos contra Bolívia e Chile. Em Porto Alegre, o volante vibra com uma emoção genuína e logo abraça o irmão, Paulo, ainda mais empolgado. Mas não tanto quanto seu pai, que liga entre lágrimas para festejar o ápice da promissora carreira do filho mais novo. O choro de seu Aílton é um emblema da felicidade “indescritível” vivenciada pelo volante. E diz muito sobre a ascensão vertiginosa do jovem de 21 anos, capaz de superar um início de ano de ostracismo em que cogitou até deixar o Grêmio, com talento e classe de sobra para encantar o Brasil (confira acima como foi a entrevista exclusiva ao GloboEsporte.com).

E para fazer brilhar os olhos de Tite já há algum tempo. O treinador citou o nome de Arthur pela primeira vez de forma espontânea, em entrevista coletiva após palestra em Porto Alegre, em junho. Na última quarta-feira, o técnico da Seleção viu in loco o volante desfilar no gramado do Engenhão e deixar um embate de quartas de final sem errar um passe sequer dos 47 que distribuiu ao longo de 90 minutos. Foi apenas a cereja do bolo para reforçar uma convicção construída em seis partidas anteriores.

– As coisas passaram tão rápido que não dava tempo de pensar, só tinha que absorver o que acontecia, tirar as coisas positivas. E como as coisas estavam dando tão certo, deixar. Deixar as coisas acontecerem, continuar trabalhando, que chegou aonde chegou. Seleção Brasileira é um auge, um sonho para qualquer jogador. Eu estou com o maxilar, a bochecha doendo de tanto sorrir. Foi algo indescritível – afirma Arthur.

Arthur viveu um dia mais do que atribulado nesta sexta-feira cinzenta em Porto Alegre. Pela manhã, antes mesmo da convocação, visitou uma escola da capital gaúcha. Convocado, recebeu os cumprimentos dos colegas no vestiário antes de treinar na academia do CT Luiz Carvalho e rumar para uma fila de jornalistas interessados em sua cobiçada entrevista. Não para por aí. Ainda sobrou tempo para participar da festa do aniversário de 114 anos do Grêmio, à noite. E para resgatar a trajetória ao longo de intensos 9 meses de um ano mais do que perfeito, como o Globoesporte.com faz nas linhas a seguir.

“Eu não esperava que (2017) fosse tão bom quanto. No começo do ano, se me dissessem “seu ano perfeito, escreve aí”… Não seria tão bom. As coisas aconteceram no tempo certo. Está sendo até então, perfeito. Espero que com algum título esse ano, seria com chave de ouro.

O quase adeus no começo do ano

Arthur abriu 2017 como opção remota de Renato Portaluppi no elenco do Grêmio, até com um “pé” no time de transição, formado por garotos que têm chances raras na equipe principal. O ostracismo despertou a ideia de deixar o Tricolor, ao menos por tempo determinado, para encontrar menos concorrência em um time de expressão menor – houve, de fato, contato de outros clubes. O pensamento é natural a um garoto em busca de espaço, mas se torna ainda mais emblemática ao volante.

– Em primeiro lugar, acho que pessoas que me aconselharam bastante no começo do ano. Eu tinha pensado realmente em sair do Grêmio, procurar o espaço em um time que não tivesse tanta concorrência quanto o Grêmio. Todo o jogador gosta de ver estádio cheio, mas isso não vinha acontecendo. Eu ficava só treinando, vai desgastando muito. Mas eu tive pessoas que me ajudaram bastante dentro de campo no Grêmio e em casa. Tive a oportunidade de pegar um treinador que sabe lidar com jogador. Foi peça fundamental para mim – ressalta Arthur.

O jovem chegou ao Grêmio em 2010, aos 14 anos, e construiu toda sua formação desde então nas categorias de base do clube, com uma passagem especial em 2014, sob o comando de André Jardine no time sub-20. O treinador demoveu a ideia de que um volante precisa ser “brucutu” e viu no refino nos passes e na visão de jogo de Arthur qualidade de sobra para ser um “cabeça de área” e orquestrar o time a partir do campo de defesa.

Deu tão certo que no ano seguinte o garoto, então com 18 anos, já fora integrado ao elenco de Felipão para a pré-temporada de 2015. Naquele ano, o jovem fez sua estreia como profissional, ao figurar na equipe durante 45 minutos na derrota por 2 a 1 para o Aimoré, no Cristo Rei, pelo Gauchão. A partida serviu de uma porta de entrada para dois longos de ostracismo e muita expectativa para contribuir, de fato, no time principal. Sem chances com Roger, Arthur foi até capitão no elenco de transição. Com Renato, em 2016, atuou apenas na última rodada do Brasileirão, na derrota por 1 a 0 para o Botafogo. A guinada na carreira, quem diria, veio numa competição de pouco prestígio, sinônimo de estorvo aos clubes: a Primeira Liga.

Os dois jogos-chave

Arthur fez sua primeira partida na temporada em um time desfigurado para encarar o Flamengo. E deixou o Mané Garrincha como um raro ponto positivo da derrota por 2 a 0. O volante seguiu como alternativa pouco usual, até brilhar novamente, na vitória por 1 a 0 sobre o América-MG, novamente na Primeira Liga. Foi o suficiente para cativar uma vaga na equipe reserva na Libertadores, no primeiro dos dois jogos-chave para a sua afirmação.

O volante foi surpresa e destaque do Grêmio no empate em 1 a 1 com o Guaraní-PAR, no Defensores del Chaco. Depois, contou com o infortúnio de uma lesão muscular de Bolaños para entrar em campo no segundo tempo contra o mesmo Guaraní, na Arena, e novamente com brilho: recebeu até troféu de melhor da partida na goleada por 4 a 1, sem errar um passe sequer. Era o princípio de uma ascensão meteórica, corroborada com o primeiro gol como profissional, na vitória por 3 a 1 sobre o Fluminense, em casa, pela Copa do Brasil. Aliás: um golaço.

– São dois jogos que marcaram bastante. Contra o Guarani, pela Libertadores, meu primeiro jogo numa competição internacional, uma competição tão cobiçada. Tem jogadores muito experientes que não tiveram a oportunidade, e eu tão jovem consegui jogar, dar uma assistência para o gol. Meu jogo contra o Fluminense na Copa do Brasil, eu pude fazer um gol, saímos com resultado positivo, 3 a 1. A Arena estava lotada, foi a vez que entrei na Arena e mais arrepiei. Eu não estava acostumado. Então marcou bastante – relembra o jogador.

O conselho do “pai” Maicon

De atuação em atuação, Arthur cavocou seu espaço como peça-chave da mecânica de jogo do Grêmio de Renato Gaúcho, justamente ao aproveitar a baixa de Maicon, seu “pai” no Grêmio. O capitão chegou a aceitar o banco de reservas para ver o pupilo deslanchar pelo clube. Mas deu contribuição ainda mais emblemática fora de campo, com um conselho valioso.

Após uma partida, Maicon “pegou Arthur pelo braço” para visitar o Centro Digital de Dados (CDD) do Grêmio. Ali, o capitão solicitou seu scout e o do garoto, para ilustrar que era necessário ser mais vertical para contribuir não só com o princípio das jogadas, mas com contundência no terço final e nos passes para gol.

– O Maicon é como um pai para mim. Sempre me ajudou. Desde quando eu surgi da base pro profissional, sempre me aconselhou bastante de coisas pequenas que fazia e não dava importância. Depois de um jogo, ele me chamou e falou “vamos ali no CDD ver alguns números da partida de hoje”. Tinha alguns números, muitos passes não verticais. Ele pegou, sentou comigo, me mostrou, para melhorar aquilo. Ter lançamentos mais longos para dar chances de gols. Não só por isso, mas por outras, me ajudou bastante. Sou muito grato a ele – ressalta o jogador.

O jogo que cativou Tite

Ao lado de seu fiel escudeiro Cléber Xavier, Tite abriu a janela do camarote que o abrigara para “sentir” o clima do Engenhão no empate em 0 a 0 entre Grêmio e Botafogo, na última quarta-feira, pelo jogo de ida das quartas de final da Libertadores. A atmosfera de decisão fez a atuação de Arthur saltar ainda mais aos seus olhos, como um elemento definitivo para sua primeira convocação.

Das tribunas, o treinador viu um volante de apenas 21 anos jogar com a “naturalidade” de um veterano para orquestrar o meio-campo do Grêmio contra o Botafogo. Arthur até começou oscilante, com dois erros na saída de bola, mas logo virou senhor do jogo. Com categoria de sobra, quase anotou um golaço em jogada individual, na melhor chance do Tricolor na partida. E esbanjou precisão nos passes foram 47 tentativas. E 47 acertos. O brilho com Tite como testemunha o transformou em “galinha dos ovos de ouro” para os gremistas. E leva a diretoria a acelerar o processo de renovação contratual, já com valorização encaminhada.

– Eu acho que foi o jogo de mais importância até hoje. Abriu as portas do Brasil inteiro. Por ser quartas, fiquei feliz pelo meu desempenho e o resultado da partida. Eu acho que tem um dedinho do Renato (a naturalidade em campo). É um cara muito experiente. Jogou por muitos anos em alto nível. Falava para a gente ser o mais natural possível, que a ansiedade ia atrapalhar. Eu errei alguns lances no começo do jogo, ele não falou nada comigo. Apenas olhou e falou “foco”. Nesse caso, é essencial. O Renato tem um dedinho nessa história – ressalta.

A ascensão meteórica em nove meses desponta em Arthur uma ponta de esperança em disputar a Copa do Mundo de 2018. O próprio discurso do técnico Tite, durante a entrevista coletiva da convocação, indica um caminho como inspiração: a trajetória de Gabriel Jesus, um ano mais novo que o gremista. E o volante sabe o que tem de fazer dentro de campo. É preciso, claro, manter o trabalho com foco total no Grêmio, já ciente de que terá de assimilar uma responsabilidade maior por vestir a amarelinha. Mas com margem de evolução, em especial no passe longo e nas jogadas individuais de infiltração.

Arthur sabe, porém, que há muito o que rolar até a Rússia, com possibilidade de deixar o Grêmio para uma sequência de carreira mais do que natural na Europa. Mas tudo em seu tempo. O volante, aliás, negocia para prorrogar o contrato com o Tricolor até o fim de 2020, mediante valorização salarial. A multa rescisória atual é de 40 milhões de euros.

– Não posso dizer (onde vou estar daqui a um ano). Se dependesse de mim, quem não gostaria de jogar Copa do Mundo. Seria muito legal. Tem que trabalhar bastante, fazer por merecer, os pezinhos no chão. Foi apenas a primeira convocação, para cavar um espaço na Seleção. Eu acho que sempre a gente nunca chega no limite. Desde que subi ao profissional, eu já evolui bastante. Mas tenho o que evoluir. O passe longo, eu posso melhorar mais ainda. Infiltração, jogada de um para um no terço final do campo – afirma.

O volante gremista está à disposição de Tite para os jogos contra Bolívia e Chile, nos dias 5 e 10 de outubro. Antes, porém, foca nos compromissos pelo Grêmio. Neste domingo, o Tricolor recebe a Chapecoense na Arena, às 16h, pela 24ª rodada do Brasileirão, provavelmente com time misto. Depois, na quarta-feira, tem o duelo decisivo com o Botafogo, pelas quartas de final da Libertadores. O jogador soma 36 partidas no ano, com dois gols marcados.

GE