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Ex-fumantes de Joinville contam como conseguiram superar o vício do cigarro

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31/05/2017 14:04

De formas diferentes, eles conseguiram deixar para trás um problema que é reconhecido pela Organização Mundial de Saúde como uma doença crônica e que provoca a morte de 10 mil pessoas por dia

André largou o cigarro e inclusive adotou uma alimentação saudável Foto: Maykon Lammerhirt / Agencia RBS
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Hoje, quando pessoas de todo o planeta celebram o Dia Mundial sem Tabaco, Vera Lúcia da Silva Pereira, André de Franca e Luciane Piovan podem respirar aliviados: o cigarro não faz mais parte da vida destes três moradores de Joinville.

Não faz muito tempo, no entanto, que fumar era um ¿estilo de vida¿ propagandeado pelas marcas da indústria tabagista e influenciava, principalmente, os jovens. Segundo pesquisas da OMS, 78% dos fumantes começaram a fumar antes da idade adulta, entre a experimentação e a inclusão do hábito na rotina, até virar dependência.

Foi o caso de Vera, André e Luciane, que se tornaram fumantes entre os 15 e os 19 anos. Quando Vera, atualmente com 60 anos, acendeu o cigarro pela primeira vez, os anos de 1970 ainda começavam e não havia restrições nem campanhas de conscientização sobre os malefícios do tabagismo. Havia, aliás, propagandas que juravam que era possível associar o fumo à prática de esportes, à liberdade e ao sucesso – a veiculação de anúncios de cigarros e similares nos meios de comunicação só foi proibida no Brasil em 2001.

– Eu tinha de 17 para 18 anos e trabalhava em uma tapeçaria. A proprietária fumava, mas o pai dela não sabia. Toda vez que ele aparecia, ela ¿enfiava¿ o cigarro na minha mão, para disfarçar – recorda Vera, para depois completar:

– Na verdade, ficamos procurando motivos, mas é uma coisa nossa mesmo: a gente começa a fumar porque quer.

Na casa dela, o cigarro não era elemento estranho, já que o pai e alguns irmãos também fumavam. Quatro décadas depois, no entanto, o hábito não cabia mais na família, nem na vida, principalmente aos olhos da nova geração. A neta mais velha, Lara, ainda não tinha cinco anos quando passou a questioná-la sobre o cigarro e, como professora de séries iniciais do ensino fundamental, havia a preocupação de ser vista pelos alunos, o que a levava a, pelo menos, nunca fumar em locais públicos. Começar a abandonar a dependência que a acompanhava por tantos anos, no entanto, era tarefa difícil.

– Eu sempre fui persistente para tudo. Então, não queria dizer para as pessoas que ia parar de fumar e, depois, não conseguir – afirma.

Com a ajuda da família – a nora é naturóloga; e a filha, nutricionista –, o desafio foi acompanhado por profissionais, com sessões de acupuntura e a diminuição gradativa do uso da nicotina ao longo de uma semana. Não foi fácil: além do efeito físico, ela precisou de forças ao sofrer dois impactos emocionais logo depois de parar de fumar, em abril de 2013.

No mesmo ano, ela perdeu o marido e uma sobrinha em um período de cinco meses. Em meio à tristeza, vontade de recorrer ao cigarro para gerar um prazer artificial não faltou, mas Vera sabia que se render nesta batalha podia significar perder toda a guerra contra o tabaco.Deixar o cigarro permitiu que ela vivesse outras possibilidades: por exemplo, fazer o trajeto de um quilômetro e meio entre a casa e o trabalho todos os dias sem ficar tão cansada e, principalmente, sem a ansiedade de chegar logo para fumar.

– Eu fumei durante muito tempo, então as mudanças não são tão rápidas. Mas minha respiração melhorou e consigo sentir melhor os cheiros e sabores – avalia ela.

Argumentos para alimentar o vício

A vida de universitário, entre pressões e festas, parecia um bom argumento tanto para André quanto para Luciane abusarem da nicotina. Ele, que havia começado a fumar aos 15 anos, viu a quantidade de cigarros consumidos se multiplicar neste período. Já Luciane passou a fumar naquele período e, mesmo que nunca tenha exagerado no uso do cigarro, passou 16 anos como fumante.

Para André, ele não era dependente até que, aos 23 anos, tentou parar de fumar. Dava certo durante a semana, mas, quando o fim de semana chegava – e, com ele, as festas –, a associação com o álcool era inevitável.

– Percebi que não dominava mais e que, para deixar o cigarro, eu precisava também parar de beber. Passei cinco anos sem álcool e, quando voltei a tomar, não sentia mais vontade de fumar – conta André, que hoje prefere dedicar-se a uma alimentação saudável.

O prazer social também era o gatilho para Luciane, que usava o momento de fumar como válvula de escape para o estresse provocado pelo trabalho. Coincidentemente, foi por causa da política ¿zero tabaco¿ adotada pela empresa em 2010 que ela foi motivada a deixar o vício: para fumar, seria necessário caminhar para fora dos limites do parque industrial e ficar à beira da rodovia. Além disso, ela começava a adotar hábitos mais saudáveis, a fazer ioga e dança de salão e a ter sessões de terapia.

– Eu havia feito uma cirurgia bariátrica e precisava do acompanhamento com psicólogo, até para não haver nenhuma compensação trazida pela abstinência – conta.
Ajuda para parar de fumar

Não há padrão quando se trata de tabagismo: algumas pessoas podem passar décadas como fumantes e não apresentar doenças graves, enquanto outras, por predisposição genética, desenvolvem rapidamente uma das 50 doenças causadas pelo uso de tabaco e seus derivados. Da mesma forma, a facilidade de parar de fumar ou não é diferente de pessoa para pessoa.

Em Joinville, o Programa Municipal de Controle do Tabagismo oferece tratamento gratuitamente em todas as unidades básicas de saúde. Em grupos, os participantes passam por técnicas cognitivo-comportamentais que os auxiliam no processo.

– São quatro sessões semanais e, depois, quinzenais. O objetivo é que, na quarta sessão, o paciente já tenha parado de fumar – conta a coordenadora do Núcleo de Apoio à Rede de Atenção à Saúde, Simone Mafra de Farias.O programa ocorre após a formação de grupos e, por isso, é necessário que interessados apresentem-se na unidade básica de saúde para entrarem na lista de espera.
Loteria da morte

– 5 milhões de pessoas morrem por doenças associadas ao cigarro no mundo por ano.

– 10 mil pessoas morrem por doenças associadas ao cigarro no Brasil por ano.

– 23 pessoas morrem por doenças associadas ao cigarro no Brasil por hora.
O tabagismo é responsável por

– 90% das mortes por câncer de pulmão.

– 30% das mortes por câncer de boca.

– 25% das mortes por doença do coração.

– 85% das mortes por bronquite e enfisema.

– 25% das mortes por derrame cerebral.

DC/Fronteira Online