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‘Me sinto completa’, diz mãe que tomou mais de 500 injeções para manter duas gestações

Notícias, Pais e Filhos, Saúde
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12/05/2017 11:21

Viviane descobriu que é portadora de trombofilia após perder um filho recém-nascido. Mãe guardou agulhas para fazer ensaio fotográfico de bebês

Ainda recém-nascidos, Bia e Lucas foram fotografados com as injeções que Viviane precisou aplicar durante a gestação (Foto: Cláudia Oseki/DIvulgação)
Legenda da foto

Este domingo, 14, terá um significado especial para a fisioterapeuta Viviane Kim, de Mogi das Cruzes. Será o primeiro Dia das Mães com os três filhos: Lívia, Beatriz e Lucas. A data, para a fisioterapeuta de 37 anos, é sinônimo de conquista, já que para levar as gestações de Beatriz e Lucas adiante, ela precisou tomar injeções diárias na barriga para evitar a coagulação do sangue, causada pelo diagnóstico de trombofilia. Todo esse esforço está estampado em ensaios fotográficos que ela decidiu fazer quando as duas crianças nasceram.

A trombofilia de Viviane foi causada por uma mutação genética. Apesar disso, na gestação de Lívia, sua filha mais velha, hoje com 12 anos, tudo transcorreu normalmente e o distúrbio não se manifestou. A descoberta veio após a perda do segundo filho, Felipe, que nasceu prematuro aos seis meses de gestação, e morreu depois de uma internação de 15 dias.

Desde então, Viviane iniciou uma saga em busca de uma explicação sobre o que poderia ter acontecido. Com a descoberta da doença, a mãe encarou o desafio de engravidar por mais duas vezes para ver a família completa, apesar do risco de hemorragia durante o parto.

Foram meses de tratamento para poder engravidar. A gestação de Beatriz foi cercada de cuidados e do acompanhamento da médica Venina Viana de Barros, que há 30 anos é obstetra e atualmente trabalha no Hospital das Clínicas de São Paulo. “A trombofilia aumenta o risco para a trombose, que é o entupimento das veias. Com a variação hormonal da gestação, as chances de se desenvolver trombose aumenta”, explica a médica.

Durante a gestação de Beatriz foram aplicadas 280 injeções, a partir da terceira semana de gravidez. “As injeções são subcutâneas e ficava roxo onde eu aplicava. Não doía, mas eu tinha bastante marcas roxas e eu não me importava com isso, só pensava que estava fazendo bem para ela. Meu marido não gostava de ver. No final da gestação, como a pele já estava bastante esticada, era mais difícil e ele não me ajudava. Quem me ajudou algumas vezes foi a minha filha Lívia”, conta.

A partir das 25 semanas veio a preocupação também com a pressão alta. No último dia antes do parto, as injeções são suspensas para que o sangue não “afine” demais e cause o risco de hemorragia. No dia da cesárea de Beatriz, Viviane estava muito aflita e com medo que a doença causasse alguma complicação para o bebê que estava prestes a chegar. “O meu maior medo era que ela não conseguisse respirar e tivesse que ir para a UTI, igual ao que aconteceu com o Felipe. Eu estava bem nervosa, chorando bastante.”

Apesar do susto e todos os cuidados para o parto, Beatriz nasceu com 2,5 kg e 45 centímetros, no dia 25 de abril de 2014. A bebê nasceu depois de 37 semanas de gestação porque o líquido amniótico estava baixo. Logo depois do parto, Viviane pode ver a sua filha, amamentar por uma hora, ainda dentro do centro cirúrgico, e as duas se recuperam juntas no hospital até o dia da alta médica.

Mais um recomeço

Mesmo com duas filhas, Lívia (na época com 9 anos) e a recém chegada Bia, Viviane diz que ainda não se sentia completa e queria mais um filho. No seu íntimo, a vontade maior era ter um menino, já que tinha perdido Felipe anos atrás.

Foi então que ela e o marido resolveram procurar a médica Venina novamente. “Eu sempre tive a vontade de ter mais filhos, uma família grande. Eu tinha a sensação que faltava alguma coisa. Me achavam louca por conta da ideia, por eu ter que passar por tudo aquilo [injeções] de novo. Meu marido ainda tinha um pouco de receio, mas conversamos e decidimos que ia ser logo.”

Viviane aplicava injeções diariamente para evitar a coagulação do sangue (Foto: Cláudia Oseki/ divulgação)

Viviane aplicava injeções diariamente para evitar a coagulação do sangue (Foto: Cláudia Oseki/ divulgação)Antes mesmo de retornar ao médico, Viviane descobriu que já estava grávida. Os cuidados durante a gestação foram os mesmos: injeções diárias, exames de ultrassom a cada 15 dias e acompanhamento da pressão arterial semanalmente.

Viviane “se completou” no dia 19 de junho de 2016, quando Lucas veio ao mundo pesando 2,630 kg e medindo 45,5 cm. Durante as 38 semanas de gestação foram exatas 310 injeções, já que no final da gravidez foi preciso aplicar mais de uma ampola por dia. “Eu vejo isso tudo como uma superação. Se eu consegui passar pela morte do Felipe e hoje estar aqui com meus três filhos e meu marido, é sinal de que eu passo por qualquer coisa agora. O Felipe veio com uma missão, foi através dele que eu descobri a doença e pude dar a luz a duas crianças pelas quais eu sou apaixonada.”

Maternidade

É entre uma descoberta e outra do Lucas, do companheirismo de Bia e do cuidado de Lívia com os irmãos mais novos que Viviane hoje se sente realizada. Na partilha de um brinquedo, em um abraço entre os irmãos e, até mesmo nas briguinhas, a fisioterapeuta descobriu que a maternidade lhe completou.

“Maternidade é doação. A gente se doa para eles e o que a gente recebe em troca é muito grande. Poder ver o crescimento deles, a cada gracinha, a cada descoberta… para mim é como se fosse uma conquista. É um encantamento. É mágico vivenciar cada fase.”

Aos dez meses, Lucas já aprendeu a dar tchauzinho, manda beijo e está engatinhando pela casa inteira. Já Bia não economiza os abraços para o irmão mais novo e ainda avisa a mãe quando o pequeno acorda. Lívia, a filha mais velha, acompanha tudo de perto e aprendeu a dividir a atenção e o carinho dos pais, sem ciúmes com os irmãos mais novos.

Recordação

Depois de tantas lutas e superações, a família resolveu registrar, em muitas fotos, a plenitude que sentem ao ver a casa cheia. Todas as injeções usadas foram guardadas e se tornaram as estrelas em dois ensaios fotográficos com os bebês.

Bia, e depois Lucas, foram fotografados em uma moldura feita com aquelas ampolas com agulhas pontudas que lhe asseguraram o direito da vida. Além da vontade da mãe, foi com a ajuda dos medicamentos que as crianças puderam nascer saudáveis.

Hoje os quadros são exibidos como troféus, tanto na sala da casa da família, quanto no consultório da médica que acompanhou as gestações. “Fazer essa foto era a minha meta, é sinal de vida, de que nós superamos e conquistamos. Eu falo com orgulho dessa história. Para mim, ter conseguido levar as gestações dos dois é mostrar que nada é impossível.”

Trombofilia

A médica Venina explica que as injeções aplicadas durante a gravidez são feitas de heparina, uma substância que ajuda na coagulação do sangue. “A injeção não interefere no nível hormonal. Ela vai atuar na corente sanguínea e faz com que você mantenha a circulação. Se o sangue engrossa, como nós dizemos, isso pode entupir a veia da placenta e o bebê morre.”

Apesar de ainda não se ter nenhum estudo que comprove a ligação da trombofilia com a morte de bebês prematuros e abortos, a médica ainda aponta alguns fatores que podem contribuir para o quadro. “Até o ano passado se achava que havia uma grande relação. Hoje, porém, temos vários pesquisadores que pensam de maneira controvérsia. A área ainda é de muito estudo mas, o que sabemos até agora, é que a genética influência, a troca de parceiros, o intervalo muito grande entre uma gestação e outra, já que o nosso corpo muda, e também o sedentarismo e o uso de anticoncepcional”, completa.

Gravidez de Lucas foi cercada de cuidados, assim como a gestação de Bia por conta da trombofilia (Foto: Cláudia Oseki/ divulgação)

Gravidez de Lucas foi cercada de cuidados, assim como a gestação de Bia por conta da trombofilia (Foto: Cláudia Oseki/ divulgação)

G1/ Fronteira Online