X

Notícias

No aniversário de cinco anos, grupo Doses de Alegria realiza sonho e ganha kombi em Florianópolis

Geral, Notícias
-
24/05/2017 10:48

Quando termina a maquiagem e o nariz de palhaço colore o rosto, Nadia Villani Ruy se transforma

Dotora Xarope de Morango e os voluntários do Doses de Alegria na tão sonhada kombi Foto: Marco Favero / Agencia RBS
Legenda da foto

O sorriso se abre e até o jeito de falar muda. Agora ela é a Dotora Xarope de Morango. O jaleco, o nariz de palhaço e as roupas coloridas fazem parte do uniforme de trabalho. O que Nádia e a “dotora” Xarope dividem – e isso a maquiagem é incapaz de esconder – são o olhar doce e acolhedor e a vontade de ajudar o outro.

Nádia é fundadora do grupo Doses de Alegria, que hoje reúne 20 “dotores”, e comemorou cinco anos neste domingo com um almoço na Cachoeira do Bom Jesus, no norte da Ilha. Eles se dividem em visitas a hospitais, casas de idosos, crianças e outras entidades na Grande Florianópolis. A agenda é extensa e, para circular, os voluntários se dividiam em veículos emprestados, não havia espaço para todo mundo. Mas isso acabou de mudar.

É quando entra na história o Divina Luz. Luis Demétrius também é voluntário. Ele e os membros do grupo espírita, cerca de dez pessoas, participam de ações nas comunidades no norte da Ilha. Acreditam no poder que a união de forças pode fazer para o bem da sociedade. Luis conheceu o trabalho de Nádia há dois anos e ficou impressionado como ela e os “dotores” se esforçavam para levar alegria e esperança por onde passam.

Com o passar do tempo, se uniram para custear gasolina, ajudar com outros gastos e a promover eventos. O mais recente aconteceu neste domingo, o aniversário do Doses de Alegria. Toda a divulgação era pela realização de um sonho dos “dotores”: a compra da tão sonhada Kombi que os ajudará a carregar não apenas os voluntários, mas também o material arrecadado nas campanhas anuais de Natal, do agasalho e Dia das Crianças.

Neste domingo, momentos antes de o almoço ser servido, os “dotores” circulavam pelo salão da sede da OAB, na Cachoeira, cumprimentando cada pessoa presente. Voluntários recém-formados faziam sua estreia – eles passam por um treinamento de pelo menos quatro finais de semana antes de atuarem no grupo.

Perto das 13h chegou a hora da coreografia da Kombi que os palhaços inventaram justamente para lembrar qual era seu principal sonho. A dança foi interrompida subitamente por uma buzina insistente e, adentrando o salão, ali surgia a tão esperada Kombi. No volante, estava Luis e de carona os voluntários do Divina Luz, todos de nariz de palhaço. A surpresa foi tamanha que a “dotora” Xarope não teve como conter a emoção de Nádia e ambas deixaram as lágrimas derreterem a maquiagem. Ao lado dela, as reações se dividiam entre o choro de alegria e os sorrisos dos demais “dotores”, entre eles o Mentado dos Teclados e o Mindinho do Dedo Curtinho, vividos respectivamente pelo marido de Nádia, Renato Casca, e pelo filho dela, João Vinícius Ruy de Oliveira.

– Tem pessoas que são anjos na nossa vida e o Divina Luz mostrou isso. Era um sonho ter essa Kombi para ajudar nas nossas campanhas e nem acredito que isso se realizou muito antes do que esperávamos – emocionou-se Nádia.

Surpresa

Os recursos para a compra do veículo foram reunidos com a ajuda de toda a comunidade. Luis e o grupo Divina Luz fizeram tudo às escondidas. Foram a Curitiba comprar a Kombi branca, escolheram um modelo mais novo e em ótimas condições. O dinheiro que faltou, juntaram com ajuda de patrocínio. O carro ficou escondido em uma casa nos Ingleses e até para fazer a vistoria Luis se disfarçou com peruca para não ser reconhecido. O veículo recebeu plotagem com a logomarca do Doses de Alegria, muita cores, e o veículo se transformou na Kombulância.

— A sensação é de dever cumprido. A gente acredita que é possível, juntos, fazer ações para melhorar a vida de alguém — afirma Luis.

Já tomou sua dose de alegria?

O silêncio nos corredores do Hospital Infantil Joana de Gusmão é interrompido pelas vozes dos “dotores”. Ninguém passa despercebido pelo prédio. De jaleco, segurando uma sacola com instrumentos de trabalho, como uma galinha de borracha e remédios (pirulitos), o grupo colore o sério e desbotado ambiente, comum a todos os hospitais.

Sentada na cama, Maria Izabel, de quatro anos, ergue-se o máximo que pode para olhar a janela. Assim que os dotores entraram na ala, a pequena que estava internada há seis semanas após uma cirurgia sorri e com o braço erguido os convida a entrar no quarto. Ao lado da cama a mãe Lucia Rosilei Pickler Aparecida observa a alegria da menina com lágrimas no rosto e confidencia:

— Da outra vez, ela ficou só olhando e não quis que eles entrassem, hoje, assim que ouviu, se levantou. É uma amostra que está melhorando — conta.

Pacientes, acompanhante, médicos, enfermeiros e os demais funcionários do hospital. Ninguém escapa de um sorriso, de um abraço, uma piada. Os “dotores” sabem exatamente os limites das brincadeiras em cada ala, e respeitam as negativas para entrar nos quartos. Nunca saem do personagem e conseguem acalmar e distrair crianças em procedimentos complicados.

— Nós trazemos motivação para essas pessoas, quebramos a rotina delas, mesmo que recusem nossa entrada nos quartos. Os voluntários precisam ter alegria e capacidade de administrar o psicológico. Lidamos com pessoas fragilizadas, mas não demonstramos pena. Temos que trazer alegria — conta Nádia que há um ano, no dia do aniversário dela, 14 de maio, conheceu sua grande inspiração, o mais famoso “dotor” da alegria, Patch Adams.

Voluntários do Divina Luz fazem a entrega da kombi Foto: Marco Favero / Agencia RBS

Voluntários do Divina Luz fazem a entrega da kombi
Foto: Marco Favero / Agencia RBS

DC/Fronteira Online