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Operador ligou máquina com aluno da UFG dentro do triturador, mas morte foi acidental, diz polícia

Notícias, Policial
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26/09/2017 10:43

Apesar de considerar conduta negligente, ex-funcionário não foi indiciado; Lucas Mariano, 21, morreu durante uma aula prática na universidade

Estudante Lucas Silva Mariano morreu em acidente com máquina na UFG, em Goiânia, Goiás (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)
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A Polícia Civil concluiu o inquérito sobre a morte do estudante de medicina veterinária Lucas Mariano, de 21 anos, que morreu em uma máquina de triturar ração durante aula prática na Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia. De acordo com a corporação, o operador do equipamento, Lucas de Souza, ligou o triturador quando o jovem estava dentro de aparelho, sem se certificar se havia alguém na máquina.

O delegado Delci Alves Rocha afirmou ao G1 que apesar de considerar que o ex-funcionário foi negligente, não o indiciou pela morte do estudante, que, segundo ele, foi acidental. “Foi um acidente, mas nós temos que ressaltar que o operador falhou ao não checar se havia alguém dentro da máquina. Ele nos disse em depoimento que não viu o jovem junto com os colegas, mas não suspeitou que ele pudesse estar dentro do triturador e ligou o dispositivo”, disse.

Em nota ao G1, a UFG informou que Lucas de Souza era vinculado à empresa terceirizada Florart Paisagismo, e que a mesma não presta mais serviços à instituição.

Por sua vez, a Florart comunicou que o operador não pertence mais ao quadro de funcionários, e que ele era contratado pela empresa para prestar serviços à universidade de segunda a sexta-feira. Segundo a empresa, a administração não tinha conhecimento de que ele realizava o trabalho aos finais de semana e disse que, quando isso ocorria, a atividade dele era vinculada à UFG, e não à Florart.

Questionada pelo G1 sobre o posicionamento da empresa, a UFG informou que “está realizando um processo de sindicância para apurar as circunstâncias dos fatos” e que “só poderá se manifestar após a conclusão do processo”.

O G1 não conseguiu contato com a defesa de Lucas de Souza.

Lucas Mariano morreu no dia 24 de junho, enquanto participava de uma aula prática do projeto em um trator. Segundo o delegado, ele estava acompanhado de outros dois colegas, além do operador do aparelho, no momento do acidente. O investigador afirmou ao G1 que, depois de colocar sete sacadas de bagaço de cana dentro do triturador, Lucas saiu de dentro do equipamento e o levou, junto com os amigos, até um galpão, onde terminaria o preparo.

“Chegando ao galpão, o estudante voltou para dentro da máquina para completar o produto para fabricação da ração. O operador disse que pediu para que Mariano saísse de dentro do equipamento, e, pensando que ele já estivesse saído, ligou o equipamento. No mesmo instante os colegas que estavam junto gritaram e ele desligou, constatando que Lucas estava dentro do aparelho e havia morrido na hora”, relatou o delegado.

O inquérito foi concluído e encaminhado ao Poder Judiciário. Segundo o delegado, o Ministério Público Estadual (MP-GO) deve decidir se denuncia alguma parte pelo acidente, visto que o inquérito não gerou o indiciamento de nenhum dos envolvidos.

Comoção

O corpo de Lucas foi enterrado no dia 25 de junho, em meio a muita comoção. Durante um culto realizado na Escola de Veterinária e Zootecnia da UFG, a mãe do estudante, Eliane Mariano, disse que Lucas estava em uma fase “feliz” e “bastante ocupada” da vida dele.

“Às vezes nós ficamos preocupados, achando que era muita coisa para ele fazer ao mesmo tempo. Ele falava para mim: ‘não, mãe, não preocupa não, está tudo bem, eu estou bem’, disse Eliane.

O estudante Matheus Reis, colega de turma de Lucas, conta que falou com o amigo horas antes do acidente.

“Cinco horas da manhã ele estava brincando comigo. Eu falei, ‘rapaz, por que você está me ligando esta hora?’ Aí depois aconteceu isso. Eu acredito que foi uma tragédia. Claro que tudo poderia ter sido evitado”.

“Vamos dar valor à vida, gente. Porque hoje a gente está aqui, amanhã a gente pode não estar mais”, desabafou Matheus Reis.

Um dos professores de Lucas, Romão da Cunha Nunes, que se aposentou na última quinta-feira, 22, contou que a última aula dele na universidade foi para a turma do estudante, que preparou uma homenagem para despedir dele. Ele disse que não imaginava que os alunos estivessem se despedindo, na verdade, do jovem.

“Recebi com muita tristeza a notícia. Tenho 50 anos que estou atuando no agronegócio e nunca vi um fato deste. Foi terrível, muito sofrido para nós nesta escola. Vai levar um longo tempo para a gente superar. A saudade é tudo que fica de alguém que partiu e ele deixou uma grande saudade no nosso coração”, afirmou.

Treinamento

O professor Juliano Fernandes, coordenador do Projeto de Confinamento Bovino da UFG, disse que o estudante Lucas Mariano recebeu todas as instruções para participar do estágio. Emocionado, o coordenador afirma que o aluno de medicina veterinária era novato no projeto.

“Ele [o Lucas] é um aluno que estava há pouco tempo no confinamento. Só que no dia anterior ele foi treinado, foi dada uma apresentação para ele sobre isso. Foi muito duro perder este aluno, perder um filho para mim.”, disse, chorando, Juliano Fernandes em entrevista à TV Anhanguera.

O Projeto de Confinamento Bovino da UFG foi implantado em 2009. Conforme explicou o coordenador, não existe um processo seletivo para participar do estágio. A única exigência, segundo ele, é ter disposição para enfrentar um trabalho semelhante ao realizado nas fazendas.

O estudante Vitor Baleeiro, que cursa o 9º período de medicina veterinária, afirma que, quando participou do estágio, em 2014, presenciou problemas como a falta de equipamentos de segurança.

“Nenhum tipo de EPIs [Equipamentos de Proteção Individual]. Sequer luvas, nem protetor solar, que é o básico que consta na lei municipal. Nada era fornecido para a gente”, revelou o aluno.

O professor Juliano Fernandes rebateu às críticas e disse que o projeto segue todas as normas estabelecidas por lei. Ele alega que o estágio não será suspenso.

G1