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Pererecas ‘invasoras’ preocupam cientistas

Natureza, Notícias
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04/12/2017 11:22

Pesquisadores fizeram o primeiro levantamento de anfíbios invasores dos biomas brasileiros. Pesquisa foi destaque em revista americana

Pererecas-das-bromélias (Phyllodytes luteolus) (Foto: Lucas Forti/Arquivo Pessoal)
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Uma espécie de perereca, nunca vista antes no litoral de São Paulo, apareceu, inesperadamente, em um condomínio de Guarujá. A presença do animal mexeu com a curiosidade de um biólogo, que descobriu que se tratava de uma espécie invasora na região. Após a constatação, ele e outros colegas cientistas conseguiram fazer o primeiro levantamento de anfíbios invasores dos biomas brasileiros e, com isso, realizaram uma previsão sobre o futuro dessas espécies.

Lucas Rodriguez Forti, biólogo e pesquisador do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), observou no verão de 2013 uma infestação de pererecas-das-bromélias (Phyllodytes luteolus) nos jardins de um condomínio na Estrada Parque da Serra do Guararu. O habitat original da espécie são as porções de Mata Atlântica que se estendem desde o norte do Rio de Janeiro até a Paraíba. Por isso, achou curiosa a aparição daqueles animais naquele local.

“Eu suspeitei que elas chegaram lá por meio de plantas ornamentais. A gente fez uma estimativa de cerca de 250 bromélias e, em cada uma, poderia ter de duas a três pererecas. Era uma população estabelecida. Os bichos estavam só naquele jardim. Não registrei em ambiente de mata nativa”, conta ele. Essas pererecas costumam viver nos acúmulos de água entre as folhas das bromélias.

Segundo Forti, como a espécie é originária de outro local, deve ser considerada uma invasora. Exatamente por isso, essas pererecas põem em risco a sobrevivência de animais nativos que vivem na Baixada Santista. Os machos da espécie invasora emitem um som para atrair a fêmea e utilizam a mesma faixa de frequência dos machos da espécie nativa, o que representa um problema.

“O ruído pode atrapalhar a comunicação das espécies nativas, o que pode gerar problemas de reprodução. É um dos problemas que vemos nas espécies invasoras. A gente conhece muito pouco sobre os efeitos que a espécie pode ter no local. São hipóteses, mas não sabemos se isso vai acontecer”, afirmou.

Após essa aparição das pererecas em Guarujá, Lucas se reuniu com os pesquisadores Luís Felipe Toledo, chefe do Laboratório de História Natural de Anfíbios Brasileiros da Unicamp, e Célio Haddad, professor do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Eles iniciaram um estudo sobre essas pererecas e também sobre outras espécies de anfíbios invasoras.

Em 2014, ele voltou a Guarujá para coletar mais dados da espécie. Cerca de 20 animais foram levados para identificação e registro. Além das pererecas, os pesquisadores fizeram um levantamento e encontraram outras cinco espécies invasoras na mesma região.

Espécies invasoras

Em São Paulo, além das pererecas em Guarujá, foi identificada a perereca-assobiadora (Eleutherodactylus johnstonei), introduzida acidentalmente na cidade em 2014. Diversas famílias começaram a se queixar de um barulho ensurdecedor, que era o canto de centenas de pererecas-assobiadoras na região.

Segundo os pesquisadores, o anfíbio bioinvasor com presença mais ampla no Brasil e com as conseqüências mais graves é a rã-touro (Lithobastes castesbeianus). Natural da América do Norte, ela foi importada nos anos 1930 e escapou dos ranários, hoje encontrando-se na Mata Atlântica, no Sul e no Sudeste. Além de competir com espécies nativas, a rã-touro possui um fungo que ameaça a população mundial de anfíbios.

Os primeiros sapos-cururus, naturais do Nordeste, foram introduzidos pelo padre Francisco Adelino de Brito Dantas (1825-1893), em Fernando de Noronha, em 1888. Estima-se que o religioso tenha levado o cururu como forma de controle biológico dos insetos que infestavam suas hortaliças.

As outras duas espécies de anfíbios bioinvasoras identificadas no estudo são a perereca-de-banheiro (Scinax x-signatus), natural da Venezuela e da Colômbia e que, como o cururu, também infesta Fernando de Noronha, e a rã-pimenta (Leptodactylus labyrinthicus), que hoje se prolifera na Amazônia Central.

Levantamento

Os pesquisadores também investigaram qual poderá ser a distribuição futura das seis espécies em função das mudanças climáticas. Simulações foram feitas tomando por base os prognósticos climáticos para 2100 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Segundo Forti, das seis espécies invasoras identificadas, quatro terão a sua área de distribuição reduzida até 2100. A perereca-assobiadora e o sapo-cururu podem vir a ter a sua distribuição ampliada. “A perereca encontrada em Guarujá tem uma tendência de redução de distribuição de espécies no futuro”, disse.

O artigo ‘Perspectives on invasive amphibians in Brazil’, concluído no ano passado, foi publicado em setembro deste ano e recebeu destaque na PLOS ONE, uma revista científica americana. Pesquisadores acreditam que, por se tratar do primeiro levantamento realizado sobre anfíbios invasores, o estudo poderá servir de base para outros cientistas. Eles também desejam que ele seja fonte de consulta para a tomada de decisões sobre políticas ambientais no país.

“É o primeiro passo para saber quem eles são, onde estão e pra onde eles vão. O mais importante é que a nossa biodiversidade tem um risco maior do que a gente pode imaginar. Precisamos de planos de ação e políticas públicas que dêem atenção a esse assunto. Monitorar essas espécies, se estão aumentando, diminuindo, expandindo ou reduzindo, isso tudo tem impactos no meio ambiente”, finaliza Forti.

Perereca-de-banheiro (Scinax x-signatus) que infestou Fernando de Noronha (Foto: Lucas Forti/Arquivo Pessoal)

Perereca-de-banheiro (Scinax x-signatus) que infestou Fernando de Noronha (Foto: Lucas Forti/Arquivo Pessoal)

G1